Michael Jackson e a nossa tragédia

Ainda nesta semana que passou, cedinho da manhã, encontro o Alexandre Karbage no restaurante do Hospital Monteklinikum. Para quem não sabe o afrobrasileirolibanês, além de excelente cardiologista, é um grande profissional do ramo do café da manhã. É sempre um deleite assistir o seu desempenho, a sua graciosidade e a sua leveza com as fatias de bolo, pão, mamão, queijos e torradas antes da faina diária. Pois bem. Enquanto lavávamos as mãos, ele vira para mim e descarrega a verdade irretorquível: “Michael Jackson era um diagnóstico clássico de esquizofrenia paranóide”. Ou seja, o sujeito era doido de pedra. Isso! Para mim, que nunca fui um fã do esquisito e serelepe cantor e dançarino afroalbinoamericano, embora lhe reconhecesse o talento, e, como muita gente, já desconfiasse do seu desequilíbrio mental, o ululante diagnóstico caiu na cabeça como a essência de todas as suas desventuras. Era óbvio demais: o que faltou para o infeliz foi um básico e prosaico diagnóstico. Afinal de contas, por exemplo, só nos compêndios de psiquiatria poderíamos encontrar o motivo de um sujeito chegar a dever mais de US$ 200.000,00 em uma única farmácia. Fosse em outros tempos ou fosse ele um Zé Ninguém, teria sido internado e recebido o tão necessário tratamento. E estaria vivo até hoje. Mas, como se tratava de “Michael Jackson, o Rei do Pop”, ou, por outra, “máquina de fazer dinheiro”, a coisa toda ficou como esquisitices. Pois é. Enquanto o ídolo pop americano consumia o seu talento e afundava cada vez mais na sua patologia mental, empresários, executivos de gravadoras, chefões de mídia, dermatologistas, cirurgiões plásticos, cineastas, o pai, o escambau, ganhavam dinheiro, muito dinheiro. Não importavam as suas manias, nem o que ele fazia com garotos imberbes entre lençóis. Era preciso sugar-lhe o talento e a sanidade em proveito da imbecil lógica do lucro permanente. Num mundo onde embustes são elevados à categoria de arte e em um tempo onde um tubarão formolizado é alegremente arrematado como “obra-prima” por US$ 12.000.000,00, uma celebridade internada e em tratamento médico não serve para vender jornais, revistas e discos e nem para cevar as audiências televisivas e os acessos à internet. De muito maior utilidade para tais fins é o artista bizarro distribuindo sandices e servindo de escárnio para o fastio doentio de um público sequioso de bizarrices. Enfim, a enésima tragédia de um popstar acaba por escancarar a grande e irremovível insanidade desses tempos modernos: o sacrifício de tudo o que é belo e humano em prol da futilidade e do vulgar dogma da usura a qualquer custo. No final, perdemos todos. Quanto ao Karbage, caso a cardiologia finde por não dar camisa, ele pode muito bem virar-se como psiquiatra. Sairíamos ganhando de qualquer forma.
Escrito por VT às 16h54
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