Lembra-te que és pó e ao pó voltarás ou para desmitificar a morte

Foi depois de ler um belo artigo no Blog do Walmir que resolvi escrever este outro. Talvez o mais fascinante, neste negócio de blogs, seja a oportunidade de esbarrarmos com gente interessante que anda, ou melhor, navega por aí, na net, distribuindo simpatia e inteligência em doses fartas. E o Walmir é daqueles que me fazem lamentar porque não me iniciei neste ofício antes. Ele é mineiro, mora em "Belozonte" e é artista: ator, autor, diretor e professor de teatro. Como todo artista digno do nome, o meu colega blogueiro é possuidor de uma sensibilidade transbordante, caudalosa, a jorrar dos seus textos como um cano d΄água furado no meio da rua. Mas, ao contrário da água desperdiçada, esta sensibilidade transmuta-se em poesia, humor e reflexões ao mesmo tempo generosas e instigantes. Pois bem. O amigo recentemente resolveu escrever sobre a morte. Ou, por outra, deitar fora as suas íntimas angústias a cerca do final da vida. E aí, pá! Cai-nos um belo texto na cabeça. Valeu irmão!
Bom. Eu não sou artista e sou mais dado à ciência "científica". O que não me impede de perceber, apreciar e absorver a cutilada instigadora do amigo das Gerais. E o tema da morte é por demais instigante. E interessante.
Como todo mundo, eu já tive muito medo da morte. E, ao contrário da maioria das pessoas, o que não é lá uma grande vantagem, eu deixei de apavorar-me ou, pelo menos, de preocupar-me com ela. Ou penso que deixei (sabe-se lá o que vai passar pela minha cabeça na hora final...). Claro que eu detestaria ver-me obrigado a exilar-me da vida agora, aos quarenta e três anos, tendo, ainda, filhos e muitos planos para florir. No entanto, desde o meu início, na faculdade de medicina, eu fui aprendendo a conviver naturalmente com a irremovível perspectiva do final da vida. Afinal de contas, é preciso aprender a ter naturalidade para, por exemplo, ir almoçar depois de uma aula de anatomia humana entre cadáveres. A opção era passar fome até o final do curso.
Então, depois de formado, decido pela especialidade de Medicina Intensiva. Resolvi passar os meus quarenta ou cinqüenta anos de vida útil, se tanto, enfurnado em UTI's. Daí que a velha senhora, anteriormente minha generosa fornecedora de material didático, passou a bater ponto comigo diariamente. Virou minha colega de trabalho. Fazer o quê, né? Eu cá, tentando salvar, e ela lá, doida pra levar. E nessa teima, vamos levando a vida. Com sucessos temporários do meu lado e fracassos temporários do lado dela. Sim, ela é mais forte e eu sei que, ao final, os pescoços de todos irão passar pelo fio do seu cutelo. Inclusive o meu. Às vezes, nessa faina, ocorre dela conseguir meter um bocado de bolas pelas minhas costas, mesmo eu não tendo a menor inclinação para fenômeno ludopédico.
Nessas ocasiões, eu tento o acordo: "Tá bom. A madame venceu. Mas deixa, ao menos, eu aliviar o sofrimento"
Pois é. Não sou inclinado a sofrer de emoções fortes no meu trabalho. Frieza? Não. Ainda a naturalidade. O leitor haverá de convir: não poderia, nunca, ter alguma presunção de sucesso, na minha atividade, se eu saísse gritando desesperadamente "Fogo, fogo na floresta!" diante de toda situação extrema. Naturalidade, sim. A par de respeitos e comprometimentos. Assim, no plural.
Acho que já dá para o leitor começar a vislumbrar o motivo da minha austeridade emocional com a morte. Agora, que fique bem clara a saudável contradição: isso em relação à minha pessoa, não em relação às pessoas que amo. Aí é diferente. Eu não sou psicótico. Diante da ausência definitiva e inapelável de alguém amado, não há trincheira mental, ou Linha Maginot psicológica, que faça qualquer ser humano, dito normal, segurar a posição frente aos panzers do desespero.
Mas, se por um lado a convivência diária com a morte me fez, pelo menos até agora, levantar o queixo diante dela; por outro, a boa, velha e, atualmente, tão destratada ciência, alumiou-me algo da sua natureza.
Em artigo neste blog (04/12/2006), declarei o meu ateísmo resoluto. Ao contrário do que parece aos crentes, a condição de ateu supriu-me ainda de mais mecanismos psicológicos para conter os rebuliços da alma (sensu lato) diante da finitude. Com efeito, e não quero parecer arrogante, todas as diligências religiosas e espirituais para explicar, interpretar, auscultar, cheirar e apalpar a natureza da morte parecem-me apenas patéticas. E olhe que, por mais difícil que possa aparentar, eu sou das raras pessoas que já leu a maior parte da Bíblia de frente pra trás e de trás pra frente. Meu pai dizia, por essa época, que eu ia acabar doido. Talvez ele acabe por ter razão.
Aí um dia, sem nada pra fazer (e, conforme deu a entender Bertrand Russel, o ócio é o pai ou a mãe das idéias que valem a pena e, acredito, das que não valem também), deu-me o estalo. Tive o meu prenúncio particular da Navalha de Occam numa época em que eu nem imaginava que tal conceito filosófico pudesse existir. Pra que complicar? Pra que construir estupendos castelos conceituais, metafísicos, religiosos, filosóficos, o diabo nas nuvens existenciais, senão para nos deleitarmos com as criações dos poetas, dos romancistas e dos filósofos? Talvez na simplicidade estivesse a chave de tudo. Vamos a ela.
A morte, antes de tudo, é decorrência do surgimento, em algum momento da evolução da vida, do modo sexuado de reprodução. Tecnicamente, não se pode afirmar peremptoriamente que um ser unicelular morra. Ele simplesmente se divide em dois e a vida continua. Isso teoricamente pode continuar a ocorrer indefinidamente enquanto as condições físico-químicas do seu microambiente permanecerem estáveis. Para os organismos pluricelulares, as coisas são mais complicadas. Não dá, de forma alguma, para eles saírem por aí se dividindo aos pares. O gasto de energia seria tremendo o que inviabiliza tal procedimento. A solução foi se dividirem por sexo. Macho e fêmea copulando alegremente e gerando filhos foi a solução encontrada pela evolução. No entanto, seria meio complicado para a família ficar ali, procriando e aumentando sempre. Em algum momento, todo mundo morreria por falta de espaço e de alimento. Tornou-se mais do que necessário o desaparecimento dos pais para que a espécie pudesse dar seguimento ao seu florescimento. Simples? Pois é.
Explicado o motivo biológico, falta explicar o mecanismo geral físico ou, melhor dizendo, termodinâmico.
Se nos reportarmos àquela física do segundo grau, pra muita gente inútil, poderemos nos reencontrar com o conceito de entropia. Pra quem não lembra, entropia é a "propriedade", digamos assim, que faz o universo e tudo o que nele está contido evoluir sempre e continuamente para o seu estado mais desorganizado e mais simples. Quanto mais desorganizado estiver um objeto ou sistema, maior a entropia do universo. Não tem jeito. Todas as coisas, vivas e não-vivas, do universo, inclusive o próprio, evoluirão para o estado de caos total.
No entanto, nem tudo está perdido. Há uma forma de driblarmos esse armagedon termodinâmico, pelo menos temporariamente. Basta liberarmos energia. Imaginemos um belo automóvel, novinho em folha. Se o dono for negligente e o abandonar sem manutenção, na garagem de casa, o que acontecerá com ele? Será progressivamente destruído pela ferrugem e pelas intempéries. Com tempo suficiente, ele desaparecerá totalmente, com os componentes da sua estrutura reduzidos ao mais completo e mais simples estado de desorganização ao mesmo tempo em que o universo ganhará entropia.
Para manter o carro nos trinques é preciso que alguém libere (gaste) energia, limpando-o, pintando-o, consertando-o, botando-o pra funcionar e por aí vai. Porém, para que o dono do carro, e qualquer ser vivo na lida diária da vida, possa liberar a benfazeja energia, as suas células terão que desorganizar uma enorme quantidade de moléculas de ATP, os reservatórios celulares de energia. A fim de que o proprietário do automóvel não morra depois de limpar ou consertar o seu valioso bem, é necessário repor os estoques de energia na forma de ATP. Pra isso, ele tem que se alimentar. Ou seja, ele desorganiza quase que totalmente a estrutura de outro ser vivo para contribuir com a sua cota de entropia ao universo (Desorganização por desorganização, antes ele do que eu!). Em troca permanece vivo. Mas só por algum tempo.
À medida que o tempo passa, o organismo de qualquer ente vai envelhecendo, ou ele adoece gravemente, ou ainda, sofre uma ocorrência suficientemente lesiva e, com isso, perde subitamente ou progressivamente a capacidade de honrar as suas obrigações fiscais com o universo. Assim como no caso da Receita Federal, não há jeito do mundo abrir mão de receber a entropia devida. Se alguém não tem como pagar, que pague com a sua própria estrutura orgânica. A morte sobrevém e a decomposição do corpo de um organismo morto nada mais é do que o regresso ao estado mais simples e desorganizado com o universo saciando-se em entropia. Morto, porém, com honra, sem nada a dever.
"Lembra-te que és pó e ao pó voltarás". O cabra que escreveu isto já devia manjar alguma coisa de termodinâmica. Eu acrescentaria: "O universo não está em aí".
O leitor pode até achar tudo isso simplório e sem graça frente às elucubrações filosóficas e espirituais. Se acreditar em mim, pode, ainda, ficar angustiado. Eu respondo apenas dizendo que as idéias mais simples são as que mais impulsionam o conhecimento humano no rumo do que de mais profundo possa existir na natureza. Por isso elas são elegantes e belas. Quanto à angústia, valho-me novamente da ciência que nos informa do tremendo derramamento de endorfinas nos receptores neuronais do cérebro na iminência da passagem derradeira, provocando, no moribundo, uma pacificadora e feliz sensação de conforto e prazer. É isso! Provavelmente a morte é um grande tesão... Será que ajuda?
Escrito por VT às 02h20
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Sobre pentacampeonato, mentalidade gerencial e macacos desvairados

Eu ainda não pretendia vir aqui comentar a recente decisão do TJD-CE sobre a questão do pentacampeonato do Vozão. Esperava a homologação dos títulos de 1915-1916-1917-1918-1919 pela Federação Cearense para orgulhosamente comparecer neste blog, usando esporas e penacho, empedernido como um Dragão da Independência, celebrar a reparação da injustiça histórica e o resgate de um título inédito no futebol cearense, além de deitar gozação na dor de cotovelo da torcida rival, é claro. No entanto, hoje de manhã, zanzando na net, dei com os burros num "post" ("O penta e uma resposta") publicado pelo jornalista Fernando Graziani no Blog de Esportes do Jornal O Povo. O Graziani é um jornalista competente, inteligente e, mais importante, honesto num meio que, atualmente, no Brasil e no mundo, não tem se distinguido muito nesta última qualidade. A situação é ainda pior na imprensa esportiva cearense. Mas, deixo este assunto para algum outro "post" futuro, caso eu tenha paciência para fazê-lo.
Pois bem. Voltando ao penta. O que me incomodou, no comentário do jovem jornalista, foi o seu questionamento do motivo da comemoração, para ele exagerada, da torcida alvinegra frente aos problemas financeiros e administrativos do clube. Da mesma forma, não entendeu porque a torcida rival está tão revoltada.
"O que isso muda, de verdade, na atual situação ruim de ambas as equipes?", perguntou o rapaz. Não muda nada, é verdade. Porém, fico a lamentar essa mentalidade gerencial tacanha que tomou conta do futebol (e de outras áreas, também) de uns tempos para cá e que desmerece o reconhecimento oficial de uma conquista importante ao mesmo tempo em que condiciona a felicidade da torcida do Ceará, neste caso, à situação político-administrativo-financeira do clube. Qual o problema da torcida alvinegra comemorar o penta em meio a esses problemas? Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E nem a maioria dos torcedores alvinegros deixarão de ter consciência da situação do clube por causa disso. A felicidade do torcedor é sempre espontânea e independe de condições. Além disso, título é pra ser comemorado sempre. E antes que alguém interprete mal as minhas palavras, vou logo deixando bem claro que eu não sou contra a boa administração e a honestidade na condução administrativa dos clubes. Apenas, repudio o exagero de pessoas que desfraldam o tedioso mantra gerencial para justificarem a atuação como bedéis da felicidade alheia. Como diz o velho, chato e verdadeiro clichê: futebol é paixão. Portanto, torcedor não tem obrigação de ser suficientemente sóbrio para analisar o balanço do seu clube de coração antes de deleitar-se com um título de campeão, ou melhor, pentacampeão, mesmo com quase noventa anos de atraso.
Por outro lado, infelizmente, virou mania, na mídia brasileira, esse tipo de análise "séria", "imparcial", "sensata", onde o sujeito se imagina numa posição magistral, empina o queixo e entorna maçantes homilias gerenciais nos cocorutos dos mortais. A origem de tudo é ainda aquele mesmo impulso interesseiro que procura alienar o povão das reais e prementes demandas sociais em prol da ideologia mercadista. Afinal de contas, é muito bonito assistir um analista circunspecto, dizer, com "racionalidade", que "para fazer gastos é preciso, antes, especificar a fonte de recursos". Ou, "o governo tem que equilibrar as contas públicas". Ou ainda, "o governo tem que garantir o superávit". Não é lindo? Tão lindo que contamina do espectador do Jornal Nacional a honestos comentaristas esportivos nos obrigando a agüentar reprimendas pela felicidade da conquista de um título muito esperado. Seja sincero, caríssimo leitor: você tem notícia de algum governo que, até hoje, tenha equilibrado as contas desde que o primeiro hominídeo africano olhou pro dedão da mão, achou que poderia fazer maravilhas e resolveu descer do pé de manga? Se hoje estamos aqui assistindo a festa da torcida do Vovô é porque, felizmente, naquele longínquo tempo, não havia nenhum analista gerencial por perto para avaliar o desperdício de recursos naturais que aquela empreitada custaria, sentar o chicote no lombo do macacão e mandá-lo subir na árvore de novo (Sobe, macaco! Volta já pro teu equipamento mangífero! Onde já se viu? Estar querendo praticar desperdício de recursos no meio dessa variação climática?)
Se formos fazer um retrospecto dos últimos trinta anos, veremos que essa mesquinha cultura de guarda-livros acabou levando mesmo foi a desastres econômicos do qual o mais recente é apenas o mais grave. Em troca, o mundo ficou chato, tão chato a ponto de, hoje em dia, ser muito feio uma torcida comemorar um pentacampeonato porque as contas do clube não estão em dia. A continuar as coisas desse jeito, melhor será acabarmos com o futebol e voltarmos para os pés de manga.
Em tempo: o garoto da foto é o George, meu filho mais novo, de seis anos e alvinegro de boa cepa como o pai.
Escrito por VT às 19h55
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