Vejam só esta notícia que eu colhi do Blog do Juca: diretores do Flamengo distribuíram, entre torcedores do clube, o número do celular do árbitro Carlos Eugênio Simon logo após a partida contra o Cruzeiro a fim de que o mesmo fosse achacado e ameaçado como “punição” pelos seus supostos erros naquele jogo. Tal infâmia deveria redundar em punição para os dirigentes e para o clube, mas, como sempre, vai ficar por isso mesmo. Por essas e outras é que o futebol brasileiro tem mesmo um longo caminho a percorrer em busca, senão da modernidade, pelo menos, da decência. Isso, se tivermos sorte, pois, o nosso futebol parece ser a demonstração mais ensurdecedora da inconsistência daquela célebre concepção linear da história – a idéia de que a humanidade evolui necessariamente para um estágio melhor e mais aperfeiçoado de organização à medida que o tempo avança. No momento e já há muito tempo, o futebol desta terra só tem piorado.
Em tempos de crise econômica global, têm se tornados comuns discutíveis comentários de especialistas e de não-especialistas a diagnosticarem a irreversível decadência do império estadunidense. Além da crise econômica em que os Estados Unidos se meteram e engolfaram o mundo, é também o retumbante fracasso militar no Iraque a outra evidência empunhada por esses teóricos para prognosticarem o desaparecimento do tal império.
Grande parte desses visionários ainda antecipa, não sem uma pontinha de tola reverência, a ascensão da China como nova superpotência imperial. Eu tenho minhas dúvidas. Pra começo de conversa e por uma questão de honestidade, eu vou logo adiantando que não compartilho desse deslumbramento cafona pelos encantos da China que assola uma boa parte da humanidade.
Em “post” anterior, neste blog, enumerei as razões que me fazem descrer da longevidade do “boom” econômico da China. Só para lembrar, afirmo que o seu crescimento, fundado na mão de obra barata, no regime autoritário que reprime qualquer demanda trabalhista, nos excessivos subsídios estatais às exportações, na desvalorização artificial da moeda, na exploração excessiva e irresponsável dos recursos naturais, na degradação ambiental sem peias, na ausência de legislações trabalhistas e de direitos do consumidor, na exportação de bens de consumo de qualidade duvidosa e na provisória e providencial ausências de uma burguesia e de uma classe média com forte poder reivindicatório, está plantando a semente da crise que, cedo ou tarde, vai assolar a economia desse grifo de cabeça comunista e corpo capitalista. É fácil crescer sem se submeter a todas as limitações impostas aos demais países. Por enquanto, a China vem fartando-se à custa da descapitalização do chamado primeiro mundo, porém, chegará o momento em que esse país não poderá mais adiar o seu confronto com as demandas legais, sociais e ambientais que forçarão uma correção de rumo. E com a obrigatória crise no rastro.
Por outro lado, impõe-se outra condição para qualquer nação candidata ao pódio do império global que dificilmente a China conseguirá satisfazer: é fundamental a infiltração dos valores culturais e sociais do império nas sociedades “imperializadas”. Foi assim com Roma, o mais bem sucedido império já testemunhado pela história humana. Os seus valores próprios e os absorvidos da Grécia, até hoje, formam os alicerces políticos, culturais, religiosos e jurídicos da sociedade ocidental. Os sucedâneos de Roma não fizeram diferente. Do contrário, só a dispendiosíssima ocupação militar, de resultados duvidosos, atualmente, para relaxar os refratários. É certo que Roma, França, Inglaterra e outros também apelaram para a máquina militar para assegurar os seus impérios. No entanto, isso ocorreu em épocas de comunicações muito primitivas o que exigia tempo para a consumação dos apelos do modo de vida imperial. Hoje, em tempos de internet, cinema, televisão e comunicação por satélite, é muito mais exeqüível seduzir do que “baionetar”. Não vejo, na patusca China, nação de línguas extremamente impermeáveis à compreensão ocidental, estrutura social arcaica e ausência de consideração aos mais básicos direitos humanos, qualquer condição para persuadir as mentes e os corações de outros povos. Para ela, talvez, seja melhor, antes, arrumar o seu balcão para, ao menos, manter o seu simplório charme.
Em meio ao pânico provocado pela crise econômica global das últimas semanas, pelo menos, uma boa notícia: Lula e Serra tomaram a melhor decisão para o país ao venderem a Nossa Caixa para o Banco do Brasil. Contrariando os interesses da trupe privatizante de sempre, banqueiros, principalmente, e de segmentos do PT, estes últimos temerosos de um possível fortalecimento de Serra para as próximas eleições presidenciais, resolveram, os dois, fortalecer o segmento estatal do setor bancário. Desta forma, o Banco do Brasil ganha mais musculatura para concorrer numa área, cada vez mais, oligopolizada pelo setor privado. Afinal de contas, a atual crise mundial vem demonstrando indubitavelmente o que acontece quando se confia além da conta nos banco privados para mover a economia. O bolso do contribuinte brasileiro agradece penhoradamente.
Caríssimos leitores, acho que todos devem ainda lembrar aquele quiprocó provocado pelo Presidente boliviano, Evo Morales, ao nacionalizar as instalações e campos da Petrobrás. Naquele momento, o Presidente Lula tratou de agir prudentemente a fim de não entornar o caldo. Foi o bastante para a direitalha raivosa e burra cuspir marimbondos de fogo por conta da suposta pusilanimidade do nosso presidente. Agora, vejam só a ironia: nessas horas a canalha, que sempre teve as mãos leves voltadas para o país e as nádegas albinas viradas para o primeiro mundo, descobriu-se, mesmo que inadvertidamente, tão patriota quanto um granadeiro de Napoleão. Naquele momento, para eles, valia até mesmo invadir o país vizinho para recuperar, na bala, o patrimônio da, eternamente execrada, estatal. Porém, à moda da velha letra de rock, o tempo passou e o nosso presidente preferiu dar a mão ao amigo Evo e, juntamente com ele, caminhar sem parar, os passos pelo chão, em prol da mais perfeita integração latinoamericana. Mesmo porque o Brasil depende muito do gás boliviano para o funcionamento do seu parque industrial. Pois bem. A fim de que pudéssemos seguir nas metáforas musicais, não se passaram dez anos e o tempo findou por dar razão ao nosso presidente. Os dois governos fecharam um acordo e a vida pôde continuar para os dois... E para nós.
Aí, quando menos se espera, nos cai nas cabeças o Presidente do Equador, Rafael Correa, engrossando o cangote e denunciando, aos tribunais internacionais, a dívida de US$ 243 milhões contraída junto ao nosso BNDES para financiar a construção daquela malfadada hidrelétrica odebrechtiana. Como o Equador, ao contrário da Bolívia, não tem nada de interessante a oferecer ao Brasil além de uma seleçãozinha de futebol para, de vez em quando, apanhar da nossa e governante que se preza deve antes defender os interesses do seu país, Lula não engoliu a desfeita e tomou uma atitude que, pelos códices da diplomacia internacional, demonstra cabalmente aonde foi parar o saco presidencial: chamou o embaixador brasileiro em Quito para consultas. O equatoriano, ao se dar conta da pouca areia no seu lhama, apressou-se a declarar-se surpreso com a resposta exagerada, segundo ele, do governo brasileiro ao mesmo tempo em que reiterou os laços de amizade com o Brasil.
"Não entendemos o motivo deste incidente diplomático por algo que é um problema claramente comercial e financeiro”, afirmou o equatoriano.
Não é tão simples assim, meu preclaro estadista. Ocorre que, ao lado da pouca importância relativa do Equador, existe outro detalhe ainda mais importante: os cofres do BNDES são abastecidos, principalmente, com dinheiro público. O que faz do calote equatoriano um grave atentado ao bolso do povo brasileiro. Ora, diplomacia é, entre outras coisas, pragmatismo. Se a Bolívia tinha gás, nada mais justo do que reconhecer a decisão soberana do seu governo quando decidiu pela nacionalização das instalações da Petrobrás. No caso do Equador, o seu presidente errou nas contas ao não perceber que o governo brasileiro jamais iria aceitar ficar de mãos abanando, especialmente quando o dinheiro público está ali, assistindo à briga. Do contrário, o presidente brasileiro incorreria em crime. É certo que a história brasileira está repleta de crimes de lesa-pátria cometidos por presidentes irresponsáveis que nunca foram (como é que se diz mesmo?) chamados às falas pela justiça. Mas, apenas porque tais crimes foram perpetrados em consonância com os interesses da elitezinha de poltranazes e alvacentos glúteos. O que não seria o caso de Lula no atual imbróglio. Rafael Correa blefou sem ter nenhum ás nas mãos e, sabendo que já perdeu essa, e como o direito de estrebuchar é sagrado e universal, ainda vai dar algum trabalho para engolir a bazófia.
Nesta VIII Bienal do Livro do Ceará, que se encerra hoje, além da já tradicional desorganização, chamou também à atenção o fato da Autarquia Municipal de Trânsito, Serviços Públicos e de Cidadania de Fortaleza (que nome!) ter espalhado placas de estacionamento proibido em todo o entorno do Centro de Convenções ao mesmo tempo em que os estacionamentos particulares passaram a cobrar o extorsivo preço de R$ 10,00 por hora. Mais caro do que muito livro vendido na exposição. Mera coincidência. Ou não?
Em boa hora, a sessão, do último dia 29, da Câmara de Vereadores de Fortaleza retirou do projeto de reforma do seu Regimento Interno, uma emenda, flagrantemente inconstitucional, do vereador Paulo Mindêlo (PSB) que queria obrigar todos os vereadores, no dia da posse, a jurar, “em nome de Deus,” respeitar a Constituição e cumprir com as suas obrigações parlamentares. O vereador João da Cruz alegou o óbvio: pela Constituição Brasileira, o Estado é laico. Ao que o vereador Mindêlo replicou: “o Estado é laico, mas não é ateu”. O argumento furado não funcionou e a emenda foi retirada de pauta.
Este episódio é útil para refletirmos sobre o perigo do avanço das bancadas religiosas nas três instâncias do Poder Legislativo. Em geral, a atuação dessa turma não se pauta pelo respeito às leis e à Constituição, muito menos pelo interesse público, mas unicamente pelos postulados daquilo que acreditam ser a “verdade” inerente aos dogmas e preceitos das suas crenças. Esses políticos da fé se elegem não para legislar, mas para impor. Assim, essas bancadas cristãs, evangélicas e que tais não se intimidam em, até mesmo, afrontar a Constituição para infligir à sociedade os seus dogmas e as suas crenças. Enfim, aquilo que acreditam ser a vontade do suposto deus. Recentemente, aqui em Fortaleza, desperdiçou-se dinheiro público para a construção de uma estátua de N. S. de Fátima, horrorosa por sinal (digo isso não por implicância, mas porque o troço é feio mesmo), em frente à igreja de mesmo nome. Um conluio de imposição e demagogia pré-eleitoral. No recente e bizarro episódio de tentativa de proibição das pesquisas com células-tronco, o obscurantismo dessa gente manifestou-se com toda a pompa e arrogância, ao não hesitarem em distorcer os preceitos constitucionais e os relatos científicos para embasar a intolerância e dissimular o fanatismo.
Enfim, às vezes eu acho que a única diferença entre esses zelotes e os radicais muçulmanos que matam em nome de Alá, é a inexistência, pelo menos por enquanto, de um líder religioso que autorize ou ordene a morte como forma de purificação da sociedade contra a “heresia”. Os maus antecedentes do cristianismo demonstram sobejamente este risco.
Da mesma forma de ontem, novamente evoco o espírito bem humorado de Nelson Rodrigues para esclarecer o sentido do termo “direita festiva” utilizado no último “post”. Vejamos. Há cerca de quarenta anos, em várias de suas crônicas, Nelson fez a impagável caracterização da esquerda festiva: o grupo de artistas, intelectuais, estudantes, cineastas e escritores que freqüentava os bares e restaurantes do Leblon, principalmente o Antônio´s, querendo “tomar Bastilhas e decapitar mariaantonietas”, ou, por outra, fazer a revolução, sem sair da mesa do bar. E hoje, como o pêndulo da história faz mudar as convicções políticas e ideológicas, vemos o mesmo grupo de artistas, intelectuais, estudantes, cineastas, escritores, o escambau, freqüentando os bares e restaurantes do mesmíssimo Leblon e de outras praias, agora a lamentar a derrota do Gabeira, o mais recente iniciado na corja de FHC, ao mesmo tempo em que tentam aplacar a consciência por não terem tido disposição para dispensar o feriadão, levantado as bundas das cadeiras dos bares e ido votar no seu candidato depois de todo o oba-oba que fizeram durante a campanha eleitoral. Mudam os tempos, mudam as convicções, mudam as ideologias, mas não muda a sólida inércia da turma que se habituou a levar a ação política na base do muito samba pra pouco enredo.
Na Época desta semana, o ator global Wagner Moura aparece lamentando a vitória do conservadorismo sobre a candidatura de Fernando Gabeira. Ora, que o PMDB não seja lá um partido progressista e voltado para o progresso social, eu até concordo, mas, querer reputar progressista uma candidatura, patrocinada e apoiada pelo PSDB de FHC, pelo César Maia, pelo Garotinho e pela Rede Globo, apenas por causa do histórico do ex-esquerdista, torna ainda mais risível o estado de estupor mental que acomete a direita festiva carioca.
E o time colorido mandou-se para a cidade paulista de Itú a fim de livrar-se da enorme pressão da sua torcida e da imprensa esportiva. Em tese, o raciocínio é lógico. No entanto, lembremos que, em 2003, a diretoria do time tomou a mesma decisão antes do jogo contra a Ponte Preta e o resultado foi rebaixamento. Dada a fama daquela cidade, podemos imaginar o tamanho da peia.
O Vascão finalmente conseguiu, depois de quase um ano, ganhar um clássico. Uma a zero sobre o Flu. Torço para que escape do rebaixamento. Principalmente, porque seria péssimo para a recém-nata gestão de Roberto Dinamite e ótimo para Euricão e seus bajuladores. Para quem ainda não sabe, o Vasco tem o segundo melhor ataque da competição, atrás apenas do São Paulo. Ao invés deste sofrimento, poderia estar disputando o título se, em contrapartida, não tivesse, também, a pior defesa.
Vergonha! Esta é a palavra exata para definir o comportamento da torcida brasileira, hoje, neste último GP do Brasil em Interlagos, quando vaiou Lewis Hamilton, o indubitável campeão inglês ao final da corrida. Isso sem falar na hostilidade demonstrada, ao longo da semana, contra o piloto. Teve imbecil que botou até faixa torcendo para que ele batesse na curva do S. Ironicamente, o S de Senna, o campeão e idolatrado brasileiro tragicamente morto em acidente durante uma prova. Em verdade, é tudo gente mal educada. Uma gentalha a compor um segmentozinho fútil das classes média e alta que, nos últimos anos, vem dando vazão à sua vocação para foca amestrada quando, incitada por vários setores da grande imprensa, principalmente colunistas e comentaristas, derramam caudalosas grosserias quando os fatos lhe contrariam. Lula que o diga. Esses zebus são capazes de pagar até R$ 3.000,00 por um ingresso para conspurcarem um belo espetáculo esportivo com a sua asnice e a sua falta de esportividade. A imprensa, com a perniciosa Globo à frente, deu a mínima para a incivilidade em flor. Tratou o caso como a usual gracinha de brasileiro.
Pois é. O clarividente Nelson Rodrigues, já na década de 60, vaticinou o erguimento da burrice à categoria de estilo de vida. O imbecil, outrora tímido e reprimido, um dia, sairia às ruas a oprimir a humanidade, exalando livremente a sua ignorância ofensiva. Infelizmente, Nelson tinha razão. Estamos na era da imbecilidade em esplendor a esmagar o que resta do gênero humano com a sua onipresença atroz. Na imprensa, nos programas de TV e de rádio, na internet, nos estádios de futebol, nas ruas, na música, na política, nas religiões, em todo lugar. É um Galvão Bueno falando sandices aqui. Acolá, uma Ana Maria Braga monitorando a subida da menina Eloá aos céus. Semanalmente, Diogo Mainardi fundindo a cuca dos seus leitores de miole mole. Padres e pastores, por todo canto, intermediando a graça divina e enriquecendo às expensas dos sofrimentos alheios. Enquanto isso, a sensibilidade, a ética, a inteligência, o bom gosto e o bom senso são recebidos com o desdenhoso olhar atravessado dos arrogantes que se sentem seguros pela sua superioridade numérica. No entanto, não percamos a esperança. Nelson não atentou para um detalhe importante: a burrice massificada é inerentemente carente dos recursos mentais necessários para garantir-lhe a longevidade. Já uma das virtudes da inteligência é a paciência, a suprema afiançadora da sua sobrevivência e da permanência da sua força criativa.