Ontem à noite, liguei a televisão e parei para assistir ao último dia da convenção do Partido Democrata, levada a cabo em Denver, Colorado, que ratificou o nome do Senador Barack Obama como candidato do partido à presidência do “grande irmão do norte”. O momento é histórico pelo fato do senador ser o primeiro negro indicado por um dos dois principais partidos dos EUA para a disputa de uma eleição presidencial. Ele também é o primeiro negro, ou afrodescendente, como queiram, com chances reais de chegar ao cargo mais poderoso do planeta. Coincidentemente, o havaiano Obama é senador pelo Illinois, o mesmo estado que revelou Abraham Lincoln. Com certeza, os líderes democratas não devem ter deixado passar em branco a enorme simbologia que este fato representa, pois Lincoln foi o presidente que aboliu a quase totalidade da escravidão nos EUA, em janeiro de 1863, a fim de quebrar a espinha da economia dos onze estados secessionistas do sul do país. Eu digo “quase totalidade” porque a chamada “Proclamação de Emancipação” só valeu para esses estados rebeldes. Os quatro “estados da borda”, como eles costumam designar as unidades federativas sulistas que ficam no limite com o norte (Kentucky, Delaware, Maryland e Missouri), permaneceram fiéis à União, por isso, não tiveram os seus “direitos” abolidos e puderam manter os seus escravos até o fim da guerra civil.
Pois bem. Sempre atentos a esse negócio de simbologia, não foi por outro motivo que os democratas escolheram o dia de ontem para fechar com chave de ouro a sua convenção. Pois, ontem, completaram-se exatos 45 anos do histórico discurso de Martin Luther King Jr. perante o Memorial de Lincoln em Washington. E foi sob o poderoso eco daquele discurso, que o Senador Obama fez o discurso de aceitação da indicação. Foi o momento dele. Os olhos e mentes do mundo não deixaram de estar ligados em Denver, apesar de a trupe republicana tentar desviar as atenções para a indicação do candidato a vice do panamenho John McCain.
No entanto, aqueles mais atentos não deixaram de perceber a fina ironia que permeou a festa democrata, a qual os caciques do partido fizeram questão de manter despercebida. Caríssimos leitores: vocês, por acaso, sabem qual partido forneceu a principal base de sustentação política do poder escravocrata, monocultor, latifundiário e racista do sul dos EUA no século XIX? Isso mesmo! Já que vocês adivinharam, vamos ao próximo parágrafo.
Voltemos aos meados do Século da Luzes. É grande a tensão na política americana. Coisa de fazer corar qualquer generalzinho de republiqueta de bananas da América Latina. Os EUA eram um país dividido. As tensões entre o Norte e o Sul tinham raízes nas profundas diferenças ideológicas, culturais, sociais e econômicas entre as duas partes. No entanto, era na questão da escravidão ou, por outra, da expansão dessa instituição, onde sobrava motivo para muita briga.
Até mais ou menos o início daquele século, as coisas iam razoavelmente bem para a jovem nação. O quebra-pau começou depois que o Presidente Thomas Jefferson resolveu comprar a colônia da Louisiana da França bonapartista em 1803. Pagou quinze milhões de dólares por um extenso território que se estendia do Golfo do México até os Grandes Lagos, abrangendo quase todo o meio-oeste americano. Uma pechincha. No entanto, aí começou o furdunço. Os políticos do Sul e os do Norte começaram a se desentender: a escravidão deveria ou não ser permitida nos territórios e estados que porventura surgissem naquela vasta região? Para entender a questão, faz-se necessário ter em mente que, naquela época, havia um frágil equilíbrio político entre o Norte progressista e industrial, que iniciava o desenvolvimento da sua forte economia capitalista, e o Sul conservador, agrário e escravagista. Qualquer adição de um estado ou território, livre ou escravocrata, podia fazer a balança política pender a favor de um dos lados. O caso foi resolvido salomonicamente pelo Congresso Americano, em 1820, através do “Compromisso de Missouri”, proibindo a escravidão na parte da grande Louisiana que ficasse acima do paralelo 36°30’ e permitindo-a na que ficasse abaixo. A exceção era o estado do Missouri que, apesar de localizar-se acima do paralelo, tornou-se escravagista.
O sossego durou pouco mais de vinte anos, até que os EUA, dando vazão ao seu eterno espírito belicista, entrou em guerra com o México e lá se foi um belo naco do território deste país que abrangia os atuais estados do Texas, Arizona, Novo México e Califórnia. Como esta área estava fora da jurisdição do compromisso supracitado, que só valia para a Grande Louisiana, a briga recomeçou e só foi resolvida, em 1850, com outro compromisso que admitia a Califórnia como estado livre e organizava os territórios do Utah e do Novo México sem restrições para a escravidão.
Desde a sua fundação, em 1836, era o Partido Democrata, de ideologia conservadora e totalmente dominado pelo poder escravocrata, que representava os interesses dos senhores de escravos do Sul que tinham como meta expandir a escravidão para os novos territórios do Oeste. Em 1854, o partido conseguiu derrubar, no Congresso, a restrição imposta pelo acordo de 1820, fazendo com que o território do Kansas pudesse ser organizado sem restrições à escravidão. A partir desse momento, não houve mais jeito das duas partes entrarem em acordo. Nesse meio tempo, nasceu o Partido Republicano com uma plataforma abolicionista e, pasmem!, defensora de uma maior intervenção do Estado na economia, coisa que os democratas da época abominavam. Vejam só como mudam as coisas!
A tensão política evoluiu num crescendo, culminando com a secessão de onze estados do Sul, logo após a eleição do republicano Abraham Lincoln, em 1860, e a conseqüente guerra civil que só terminou em 1865 com a derrota dos secessionistas.
Vale dizer que, na campanha de 1860, a estratégia democrata era pintar o candidato republicano como um abolicionista e ignóbil defensor da igualdade entre brancos e negros. Uma aberração para os padrões do preconceito racial existente, na época, nos EUA. A coisa foi tão séria que, em alguns estados do Sul, o nome de Lincoln sequer apareceu nas cédulas de votação. Ao final, os sulistas cumpriram a ameaça de separarem-se da União no caso de vitória republicana. A tragédia que se seguiu deixou um rastro de 600.000 mortos. Algo que, com certeza, os atuais democratas detestariam lembrar.
Da mesma forma que, nas eleições de 2006, este blog declarou o seu apoio ao candidato Lula, já está na hora de deixar claro que esta página não apóia nenhum dos atuais candidatos a prefeito de Fortaleza. Sou de opinião que todos deixam a desejar, embora as restrições a uns sejam maiores do que a outros. Volto a lembrar que, ao contrário do que pensa o vulgar senso comum, não existe esse negócio de imparcialidade. Os nossos vieses, no meu caso de esquerda, sempre ficam impressos em tudo aquilo que dizemos, fazemos e escrevemos. Em todas as linhas e entrelinhas.
Ah, as voltas que o mundo dá... Fidelíssimo ao seu estilo verbal destemperado, o deputado federal Ciro Ferreira Gomes detona a administração da prefeita Luizianne Lins nesta entrevista (?) postada no blog do seu rebento, Ciro Saboya. “Fuleiragem” foi a palavra usada pelo ex-governador para qualificar a gestão da prefeita. Logo em seguida, chama a loura de “coronelzim de saias”. Tudo isso porque o PT, partido da atual alcaide em campanha pela reeleição, conseguiu impedir, na justiça, que a candidata a prefeita e ex-mulher de Ciro, senadora Patrícia Saboya, utilizasse, na sua propaganda, imagens do Presidente Lula. Revoltado, Ciro Gomes lança mão da sua Thompson verbal usual.
Censura ou não, o fato é que a lei eleitoral impede que pessoas, filiadas a alguma agremiação partidária, participem de campanhas que não sejam as do seu partido ou coligação. Porém, como todo político, o ex-governador não se constrange em fazer-se, e a nós também, de besta, esquecendo que, nas eleições de 2006, a coligação, da qual o deputado participava, também bateu às portas da justiça e conseguiu bloquear qualquer uso das imagens do presidente na campanha do então candidato do PSDB, Lúcio Alcântara.
Quanto a essa história de “coronelzim”, a prefeita Luizianne pode ter lá os seus defeitos e a sua atuação na prefeitura não ser uma maravilha, no entanto, não será no seu fenótipo político que iremos encontrar qualquer resquício do DNA coronelista. Muito ao contrário do deputado Ciro Gomes que, com seu estilo político, faz bem jus ao fato de ser filho de coronel e egresso da velha ARENA da ditadura militar.
O grande cantor e compositor americano exorciza seus fantasmas nesta tocante interpretação da música de Trent Reznor. A cortante voz de Johnny Cash parece transbordar todos os sofrimentos e revezes que ele suportou ao longo da sua vida. Nessa pegada, acaba por fazer rebentar também os nossos. Este vídeo ganhou os prêmios de “Melhor Fotografia” e “Melhor Vídeoclipe” do Grammy Awards em 2003 e 2004, respectivamente.
Reznor, depois de assistir ao vídeo, declarou que, a partir daquele momento, a canção já não seria mais sua, mas de Johnny Cash.
O clipe ficou marcado pela forte identificação da letra com a vida pessoal do cantor, repleta de problemas com a dependência química, bem como, por ter sido o último trabalho do já debilitado artista. Sua esposa, June Carter, que aparece no clipe, morreria poucos meses depois e Cash logo a seguiria. Segundo o próprio Johnny é a mais bela canção anti-drogas já escrita. Profundamente cristão, o cantor alterou o verso original “crown of shit” para “crown of thorns” (coroa de espinhos) numa referência ao sofrimento de Cristo. A casa, onde o casal vivera por quase trinta anos e que serviu de locação para as filmagens, foi destruída por um incêndio em 2007.
I hurt myself today To see if I still feel I focus on the pain The only thing that's real The needle tears a hole The old familiar sting Try to kill it all away But I remember everything
Chorus: What have I become? My sweetest friend Everyone I know goes away In the end
And you could have it all My empire of dirt
I will let you down I will make you hurt
I wear this crown of thorns Upon my liar's chair Full of broken thoughts I cannot repair Beneath the stains of time The feelings disappear You are someone else I am still right here
Chorus: What have I become? My sweetest friend Everyone I know goes away In the end
And you could have it all My empire of dirt
I will let you down I will make you hurt If I could start again
A million miles away I would keep myself I would find a way
Jadel Gregório, o fiasco-mor do atletismo brasileiro em Pequim, após o sexto lugar obtido com aquele ridículo salto de 17,20 m, chorou, conforme o protocolo, e desabafou: “Não sei o que aconteceu, trabalhei o ano inteiro, não sei o que deu errado”.
Essa história da desdita da atleta Fabiana Murer já está meio batida, mas, ainda assim, eu vou dar o meu pitaco. Ainda que a organização da competição de salto com vara tenha sido uma lástima, nada justifica a reação histérica da saltadora diante da platéia. Afinal de contas, como vários colegas seus em Jogos Olímpicos, uma atleta do seu nível tinha que estar preparada para qualquer imprevisto que não fosse doença ou contusão. Contudo, tive pena da moça. Ainda mais porque a sua tristeza acabou por realçar o seu belo sorriso.
Futebol brasileiro, bendito sois entre as mulheres!
Se estou chateado com a derrota da seleção (?) brasileira (??) para os argentinos? Mas nem um pouquinho! Além da vitória dos castelhanos ter sido de uma torrencial justiça, há muito que eu deixei de preocupar-me com o destino desta récua antipática, que o vulgo ainda insiste em chamar de seleção brasileira, e onde quase todos (pode haver uma ou outra exceção) preocupam-se apenas com as suas polpudas contas bancárias. É forçoso reconhecer: os jogadores argentinos honram muito mais o uniforme que vestem do que os nossos impatrióticos players of fortune.
O time brasileiro, atualmente, não passa de uma máquina de fazer dólares e euros para abarrotar, sempre e sempre, os cofres da CBF, dos cartolas, dos fabricantes de material esportivo, das redes de televisão, dos treinadores, dos jogadores e dos seus empresários. Estaria tudo bem se, a exemplo do futebol europeu, houvesse transparência e respeito com os milhões de torcedores que contribuem com as audiências televisivas e com o preenchimento das milionárias cotas de patrocínio. Estaria tudo bem, ainda, se, a exemplo do futebol europeu, a bilionária entidade-mor que gere o futebol deste país infeliz não abandonasse a grandessíssima maioria dos clubes ao destino comum da penúria financeira. E a coisa ainda há de piorar dada a perspectiva do assalto aos cofres públicos quando começarem a organizar a sinistra copa de 2014. Enfim, com esse tipo de profissionalismo obsceno, melhor é ficar com o prazeroso amadorismo do futebol feminino. Pelo menos, enquanto a cartolagem da CBF e os seus cúmplices midiáticos não o perverterem também.
Na verdade, a bela não é uma pessoa real. Ela não passa de uma animação digital que nos permite um vislumbre do futuro do cinema e dos jogos eletrônicos. Produzido pela Image Metrics, este clip desafia, com sucesso, o conceito “uncanny valley”, segundo o qual, à medida que a aparência e os movimentos de um robô se tornam cada vez mais semelhantes às de um ser humano, o nosso grau de empatia em relação a ele aumenta progressivamente. No entanto, só até um determinado limite. A partir daí, a reação da mente humana é de repulsa. Será o fim dos atores, dos apresentadores de TV e dos âncoras de telejornais? Na minha opinião, as perspectivas de uma tecnologia como esta são, ao mesmo tempo, interessantes e sinistras.
Pinço, do Liberdade Digital, uma lista com nomes estrambóticos que alguns oportunistas candidatos a vereador registraram na Justiça Eleitoral com o objetivo de chamar à atenção e angariar alguns votinhos a mais:
ADRIELY FATAL - AECIO PERALTA - AIRTON MOTOBOY, O IRMÃO - ALAN TERCEIRO - ALDO DOS TECLADOS - ANTONIO GARAPA - BATISTA DA GENTE - BENTÃO CABELEIREIRO - BODE ZÉ - BOZOKA - CABO NÊM - CARLA BLOND - CARLINHOS DO COMBATE À DENGUE - CARLINHOS SIDOU - CARLOS CÓ - CÉSAR SERESTEIRO - CHIQUINHO CAMPO DOS INGLESES - COLEGUINHA - COMPADRE ROCHA - COSME DAMIÃO - ESCRIVÃO EDILBERTO - EUDES CURIÓ - EULÓGIO NETO - FÁTIMA DA ZEZA - FEFÉ - FLAVINHO DO RADIADOR - GARRAFINHA - GOSTOSINHO - GUEGUEU - IRMÃ TOINHA - JACOZINHO DO FORRÓ - JERÔNIMO JJ - JÔ DO POSTO DE SAÚDE - JOÃO CARTEIRO O TEIMOSO - JOVANIL - KALANGA - KÁTIA HEFFNER - LALLESKA - LEIDY DAY - LHEGUELHER - LIKO - LOURA 2008 - MAGUINHO DO CAVACO - MANO BOUTALA - MANUEL DADINHO - MANUEL DO OURO PRETO - MARCOS DO CARANGUEIJO - MARQUIM DA LERIÇE - PAPAI NOEL (ENOCH MATEUS) - PAULA GRETCHEN -PAULINHO DA COELCE - PAULO DO BREGA - PEDIM DA PERIFERIA - PEDIM DO SÃO CRISTÓVÃO - PINGUIM - PRETO RAP - PROFESSOR CANECO - PROFESSOR CÍCERO CALOU - RAFAELA BUSSOLO - REGINALDO GOL - RENATO FOTÓGRAFO - RICARDÃO - RITINHA BACANA - ROBERTO BOB - RÔMULO DO TERÇO - RUSTIN - SÁVIO PEZÃO OU PEZÃO - SHAO-LIN - SILVANA FOCA - SILVESTRE DO LICEU - SULIVALDO GURGEL - TALDO PAPAI NOEL - TEL - TIA CONCEIÇÃO - TIA VALESCA - TIA ZIZI - TIÊTA (HOMEM) - TOINHO DA FARMÁCIA - TONINHO OU TOINHO - TOTÓ - TOTÔ - VANDA DO CÉSAR CALS - VITOR DA FARMÁCIA – ZIER.
Será que algum leitor teria a coragem de votar em algum desses nomes? Fico aqui pensando na falta que um lança-chamas ou uma mangueira de bombeiro faz nessa hora.
Neste final de semana olímpico, dois fatos inegavelmente se destacaram, para nós, brasileiros, em meio à torrente de fracassos previamente anunciados: a estupenda vitória de César Cielo na natação e a queda de Diego Hipólito.No entanto, há, ainda, um terceiro acontecimento que também me chamou à atenção. Um fato discreto e pouco percebido, mas que, ao ser associado à derrocada do nosso favorito na ginástica, torna-se pleno de significação.
Era final da tarde de ontem e eu, sem nada pra fazer depois de ter secado, mais uma vez, o time colorido (o meu olhar seca até pião-roxo), resolvo passear pelas resenhas esportivas dos vários canais de TV. De repente, paro numa imagem do americano Michael Phelps, de roupão, esperando o início de mais uma prova onde, é claro, ele ganharia mais um ouro. Ali, em pé, o entediado galalau americano, também sem nada pra fazer, soltou um prosaico... bocejo. O leitor haverá de perguntar-me: e o que tem a ver o bocejo do marfanóide com a infelicidade do nosso Diego? Respondo eu: TUDO! A começar dos pontos em comum. Ambos viajaram a Pequim como favoritos.Ambos, também, são tecnicamente mais graduados do que a maioria dos seus concorrentes. Tá certo que o americano está num patamar superior de excelência atlética, mas, Diego Hipólito é suficientemente bom para justificar o seu favoritismo. E, também, para que os locutores e repórteres da Globo derramassem, mais uma vez e como sempre, o impertinente blablablá pseudopatriótico antes mesmo dos acontecimentos.
Pois bem. Nelson Rodrigues, o mais freudiano dos nossos escritores, lá pelos idos dos 50, apareceu com o conceito do "Complexo de Vira-Latas" para explicar a sucessão de fracassos do escrete verde-amarelo pré-58 nas disputas internacionais. Para Nelson, o jogador brasileiro sempre foi e sempre seria tecnicamente melhor do que o estrangeiro. No entanto, essa superioridade técnica nunca se traduzia em vitórias, especialmente em copas do mundo. E por quê? Simplesmente, porque o atleta brasileiro gania de humildade diante do "paaassa!" de qualquer perrna-de-pau branquelo. Essa indecorosa falta de atitude, invariavelmente, levava-o às derrotas na hora de decidir, na hora de ser campeão. Foi esse complexo de inferioridade que esteve nas raízes das nossas derrotas de 38, diante da Itália, de 50, diante do Uruguai, e de 54, diante da Hungria. Hoje, o futebol brasileiro já não padece dos efeitos deletérios do tal complexo, porém, este insiste em manifestar-se em outras modalidades, quase sempre agudizando a atávica propensão do atleta brasileiro para a icterícia desportiva. Como explicar os fiascos do Diego em Pequim, da Daiane em Atenas e de vários outros atletas brasileiros, também favoritos em olimpíadas passadas, senão como límpidas expressões do nefasto Complexo de Vira-Latas? A seleção de handebol feminino, ontem à noite, sofreu devastadora derrota para o esforçado time sueco quando tinha tudo para ganhar e classificar-se para a próxima fase. Quem não se lembra daquelas terríveis partidas de vôlei feminino entre Brasil e Cuba quando aquelas horrorosas jogadoras cubanas passavam o jogo inteiro rugindo para as nossas compatriotas até provocar-lhes o choro e a derrota? Não duvidemos que até aquele cavalo que refugou há oito anos, em Sidney, tenha amarelado também. Sabe-se lá o que tenha ocorrido na interface cavalo-cavaleiro naquela ocasião? Por favor, me poupem da puída alegação da crônica falta de apoio e incentivos para o atleta brasileiro na gênese dessas tonitruantes derrotas. Estamos falando de atletas que há muito ultrapassaram o estágio da mendicância em busca do custeio. A maioria deles, senão todos, moram e treinam no exterior onde desfrutam dos melhores técnicos e da melhor estrutura de preparação.
O mais bem preparado atleta brasileiro começa a errar e a perder quando surge com aquele irritante discurso da humildade, do almejar, do ansiar. Ora, caríssimos, se o sujeito é mesmo bom, ele jamais pode entrar em campo, na quadra, na pista, no tatame, seja lá onde for com postura humilde, ansiando, almejando. Ser humilde no esporte é colocar-se, já de início, numa situação inferior à do adversário. Esse é o primeiro passo para derrotas homéricas. Pelé nunca foi humilde. Garrincha desconhecia totalmente o significado dessa palavra. Maradona, até hoje, nunca mostrou nenhum pendor franciscano. Piquet muito menos. E Senna? Esse é que nunca foi humilde mesmo, apesar de, fora das pistas, adorar exibir um semblante de carmelita descalça. Humildade e vitória são duas substâncias imiscíveis. O sujeito bom, o craque verdadeiro, o top de linha entra na disputa consciente da sua superioridade sobre os concorrentes e, despejando a sua competência técnica, os oprime efetivamente para derrotá-los. Essa saudável opressão inibe os adversários, os faz preocuparem-se, os estressa o suficiente para que sejam batidos. Para o vencedor ficam os títulos, as medalhas e o bocejo do enfado vitorioso.
Mas, atenção: tal postura não tem nada a ver com desrespeito aos adversários. Respeitá-los de verdade é não curvar a espinha, mas jogar com seriedade, com competência, fazendo uso de todas as habilidades técnicas, impedindo-os de fazer o jogo certo e tirando-lhes qualquer possibilidade de vitória. Enfim, é ter em mente que os concorrentes não estão ali por acaso senão por serem também competentes.
Tudo isso passa muito longe da humildade. Esta é, antes de tudo, desrespeito por si próprio. Ela dá provimento à insegurança que leva ao erro crucial. Ao final, resta ao humilde o torpe choro conseqüente à vitória almejada, mas não obtida. E quando o choro vem acompanhado de pedido de desculpas ao país, eu tenho ímpeto de dar um duplo mortal carpado na sala tamanha é a minha indignação. É claro que um atleta, por mais seguro que seja da sua superioridade técnica, pode, ainda sim, cometer erros e perder. Mas, a derrota, nesse caso, é mera conseqüência da aleatoriedade do esporte, jamais da pusilanimidade.
O bocejo do Phelps, longe de significar desprezo pelos demais nadadores, foi simples conseqüência da sua excelência técnica e da certeza de ser o melhor entre os demais. Toda vez que eu revejo aquele primeiro gol do Maradona contra os ingleses na Copa de 86, tenho a clara impressão de vê-lo bocejar antes de driblar o último adversário e empurrar a bola para as redes. O mesmo se dá quando me deleito com o gol de cabeça do Pelé contra a Itália na final de 70. O negão parece pensar: “Ai, ai, que chato! Por favor, alguém me traz um jornal?.” As garotas do vôlei melhoraram tanto que, certa feita, até quebraram o maior pau com as cubanas dentro dos vestiários. Depois devem ter ido dormir felizes e bocejantes. Foi ali que eu tive a certeza que elas haviam se tornado verdadeira campeãs. O heróico Cielo, que não deu chance aos outros competidores, bem que podia ter soltado um bocejozinho no pódio. Não chegou a tanto, entretido que estava com as saudáveis lágrimas do dever cumprido. Assim como Pelé cinqüenta anos antes no ombro de Gilmar. Torço para que um dia ele aprenda a bocejar antes da disputa. O garoto de Santa Bárbara tem personalidade suficiente para ensinar aos seus colegas brasileiros que chorar na vitória é bom, mas, almejar menos, ansiar menos, bocejar mais e levantar o espinhaço são fundamentais.
Diretamente do computador de Raul Reyes, o segundo homem das FARC, algo que você jamais encontrará na imprensa bronzeada:
“São inocultáveis as manobras dos especialistas em nos barrar no Foro de São Paulo e outros cenários. Nisso está uma parte do PT com o inefável Marco Aurélio e outros que, embora posem de amigos, na hora das decisões se colocam do outro lado.”
É chato voltar a esse assunto, no entanto, mais uma vez, me caiu na cabeça outra declaração do inarredável “defensor do estado de direito”, ministro Gilmar Mendes, que, pra variar, desancou novamente a Polícia Federal. Fazer o quê, né não? Bom, pra começo de conversa, gostaria de ressaltar que qualquer ação da PF contra a bandidagem do topo da nossa pérfida pirâmide social aproxima mais o Brasil do verdadeiro regime republicano do que qualquer sentença do dito ministro.
Pois bem. O nosso recalcitrante Gilmar, convidado para um debate promovido pelo Estadão, não se fez de rogado e cuidou, mais uma vez, de encher a paciência do distinto público que paga o seu altíssimo salário: voltou a criticar as ações, supostamente espetaculares, da PF, bem como o uso do nosso maior totem republicano na atualidade: as democráticas algemas. Em determinado momento, o ministro fez uma declaração que, na minha modesta opinião, pode muito bem ser interpretada como ato falho e, talvez, possa explicar grande parte da atuação anti-republicana do Presidente do Supremo:
"Um dia é um adversário político exposto com algema. Amanhã, podemos ser nós. Com isso, não se pode brincar".
Agora, pergunto eu: o nobre ministro tem medo de quê? Eu, por exemplo, não tenho nenhum medo de cair nas malhas da PF. Mas, se levarmos em conta o passado pouco recomendável do nosso “campeão da legalidade”, realmente é o caso dele sentir medo, muito medo...