Chifre e pleonasmo, tudo a ver na mídia brasileira!
Em sua edição do dia 19 do corrente, a Folha de São Paulo pespegou numa manchete: “Odebrecht paga livro sobre Bolívar”. Aparentemente, nada de tão extraordinário para merecer esta estrepitosa chamada numa página de tão nobre diário que, certamente, deve ter assuntos mais prementes para se preocupar como a nunca antes vista, no mundo ocidental, intenção do governo petista em perpetuar-se no poder a ameaçar as notórias instituições democráticas da pátria amada brasileira salve, salve. Pois bem. O tal livro nada mais é do que uma compilação de textos do alcunhado “Libertador das Américas”, escritos entre 1805 e 1830, editado, em espanhol, pela Fundação Biblioteca Ayacucho na década de 70 e, agora, lançado no Brasil. O desconforto do jornalão paulista deve-se às idéias do ilustre libertador que, ora, vejam só!, servem de inspiração para o seu compatriota, o “demônio da boina”, o presidente venezuelano Hugo Chávez. Além disso, a suprema ofensa: o governo venezuelano pretende distribuir gratuitamente esta precursora versão tropical do Livro Vermelho às escolas públicas das capitais onde existem consulados venezuelanos, a saber, São Paulo, Rio de Janeiro, Roraima, Rondônia e Amazonas, além do Distrito Federal. A Odebrecht patrocinou a primeira tiragem de 5000 exemplares. Eu já estou aguardando artigo da VEJA desancando a memória do general oitocentista, aproveitando para mimosear os seus brilhantes leitores com noções de higiene pessoal no campo de batalha. A coisa vai feder!, com o perdão do trocadilho.
Enfim, com mais essa, assoma-me à lembrança, mais uma vez, a antiga metáfora rodrigueana, da qual lanço mão, para descrever, como espasmos de cachorro atropelado, o frouxo de riso de que sou acometido a cada tentativa da mídia tupinambá de colocar chifre em cabeça de cavalo ou, por outra, de colocar o cavalo inteiro no chifre tamanha a sua tendência ao exagero desmesurado, com pleonasmo e tudo. Somente o pleonasmo para caracterizar,com precisão, o comportamento hiperbólicodesta mídia boçal que não economiza esforços, e a nossa paciência, para anatemizar tudo o que remonte a liberdade, independência e soberania nestes trópicos “del sur”.
Ringo Starr (vocal e bateria), Tom Petty (baixo), Jeff Lynne (guitarra-base), Joe Walsh (guitarra-solo) e Jim Keltner (percussão) na bela e clássica "I Call Your Name", dos Beatles.
Os órfãos do governo FHC, como o jornalista Reinaldo Azevedo e os analistas da VEJA, não se enfadam de apregoar que os bons resultados da política econômica do governo petista devem-se, principalmente, às “virtuosas” raízes lançadas pelo governo anterior. Aquele, tucano-pefelista, lembram-se? Sendo assim, pergunto eu:
Por que os bons resultados não apareceram logo durante os longos oito anos de mandato do príncipe?
Se a política econômica da octaetéride fernandista era tão virtuosa, por que o país quebrou duas vezes, em 1998 e em 2002, no rastro das crises cambiais russa e argentina, respectivamente?
Se as duas quebradeiras citadas acima foram conseqüências apenas dos solavancos econômico-financeiros internacionais daquelas épocas, como eles gostam de matraquear, por que o Brasil está sendo tão poupado da crise que ora corrói a economia norte-americana?
A resposta é cristalina e tonitruante: porque FHC e seus iluminados, seguindo rigorosamente as prescrições dos gurus neoliberais, mantiveram, irresponsavelmente, a economia brasileira excessivamente dependente do mercado financeiro internacional. O raciocínio era simplista: o mercado financeiro, leia-se especuladores, palavra que não existe nos dicionários da imprensa direitista, tratariam de desaguar no país as divisas necessárias para manter a estabilidade da nossa moeda desde que fossem respeitados os mandamentos das boas práticas econômicas neoliberais, principalmente a desregulamentação e a generosa abertura do mercado brasileiro. Os exemplos, à época recentes, da Rússia, Tailândia, México e Argentina, foram solenemente ignorados pelo governo e pela imprensa conservadora e sabuja. Deu no que deu. Naquelas duas oportunidades, este Brasil só não virou uma Argentina porque o FMI compareceu com volumosos empréstimos que salvaram a reputação dos economistas tucanos e, no caso da crise de 1998, a reeleição de FHC.
Mas é claro que a imprensa direitista jamais vai admitir a burrada. Para tanto, prefere fugir do assunto e desancar a memória do Che para deleite dos seus leitores ávidos de mesquinhez. Que seja. Que continuem a cevar a burrice e a mediocridade dos seus admiradores. A burrice tem uma única e escassa vantagem: ela diverte. No entanto, paradoxalmente, ela também irrita. Principalmente quando disseminada por gente que abre a boca ou escreve besteiras em artigos de jornais, revistas e blogs dando-se ares de porta-vozes da única e irretorquível “verdade”. A deles. Quando alguém lhes baixa as calças para revelar as bundas sujas reagem selvagemente. Não passam de dependentes da própria empáfia cínica.
Só agora me ocorreu outra perguntinha para a qual eu não tenho esperança de resposta: o que o banqueiro Salvatore Cacciola tem a dizer sobre a brilhante política econômica do governo pessedebista-pefelista???
Este blog manifesta o seu pesar pelo inesquecível Dr. Vicente Lobo. Grande neurologista cearense que, com a sua maneira invulgar de encarar a vida, foi protagonista de algumas das mais pitorescas histórias que eu tive o prazer de conhecer ou presenciar. Escrito por VT às 21h44
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Quem controla o poder Judiciário?
Foi com renovada esperança, para usar um chavão, que eu assisti, nesta semana, à dolorosa cena da separação do senador Renan Calheiros da cadeira de presidente do Senado Federal. Nem tanto pelo fim desta chatíssima novela de enredo medíocre que só a inata vocação nacional para as bananices poderia conceber. Mas, por perceber, ainda, no nosso “quengresso”, uma réstia de sensibilidade aos humores da opinião pública. Devo esclarecer que eu não tenho lá muita boa vontade com esse ser imaterial e trânsfuga chamado “opinião pública”. No entanto, devo-lhe reconhecer uma só e escassa virtude: é a única forma minimamente efetiva de controle dos poderes Executivo e Legislativo. É certo que, muitas vezes, os nossos biltres “quengressistas” não dão a mínima para ela e continuam a praticar os seus mal feitos descaradamente à vista de todos. Isso até certo ponto. Quando a indignação dos cidadãos se avoluma o suficiente, eles acabam por ceder os valiosos anéis com medo de perder os dedos. Ou será o contrário? Por este motivo, o finado, digo, o finório Renan acabou encontrando a sua nêmese. Afinal de contas, não foi por outro motivo, senão pela pressão da opinião pública, que aquelas frações do PT e do PMDB, antes tão denodadas no apoio ao finório, resolveram debandar da impudicícia e abandonar o notório senador à fogueira da execração pública.
Mas, da mesma forma que o pensamento voa e arrebata a esperança, logo ele baixa à terra e enterra a sua consorte. Não durou muito o meu sorrisinho cidadão. Pois me lembrei rapidamente daquele outro poder totalmente inacessível ao pensamento público. Ele mesmo, o Judiciário. Daí a pergunta: “quem controla o poder Judiciário?” Como é sabido, juízes, promotores e procuradores não são eleitos, são vitalícios nos seus cargos e fiscalizam a eles próprios. Nada mais convidativo à corrupção, à leniência, à inépcia e ao autoritarismo pela manipulação de leis e sentenças num país sem muita cultura e tradição de zelo pelo interesse público. Daí o eterno e aparentemente irremovível desfile de fatos vergonhosos e revoltantes em todos os níveis do poder que deveria garantir o estado de direito. Importante: não estou generalizando. Longe disso. Reconheço o trabalho de muitos membros, talvez a maioria, do poder Judiciário que trabalham honestamente e justificam plenamente os seus altos salários. Aquele jovem magistrado que mandou algemar o Jáder Barbalho, por exemplo, me emocionou. Mas, a torpeza impunida de alguns acaba justamente por depauperar a confiança que o cidadão eleitor e pagador de impostos deveria ter pelo poder designado a garantir-lhe os direitos. Para mim, magistrados e seus anexos parecem constituir uma casta que flutua acima da sociedade e das leis. E nada mais adequado para garantir essa graciosa capacidade flutuante do que a pusilanimidade dos políticos e da imprensa. Passam reformas, passam constituições e nada de se mexer com os seus decanos privilégios. Nada de impor-lhes o necessário controle externo. Basta a corporação judicial exibir alguns muxoxos e derramar diatribes em defesa dos seus interesses que as classes política e jornalística enfiam o rabo entre as pernas e fogem ganindo de subserviência deixando a cidadania a ver navios. Não me iludo com execração de um ou outro togado mais afoito que exagera na sem-vergonhice e acaba detonado. A essência da imoralidade segue intocável. Desafiando o estado de direito e indignando a nossa consciência.
Quando, em junho de 2005, estourou o escândalo do chamado mensalão, logo ficaram evidentes as raízes tucanas do esquema ilegal. O que se pretendia um arranjo criminoso do PT a fim de subornar congressistas para que votassem a favor dos projetos do governo era, na verdade, um esquema para levantamento de verbas para financiamento ilícito de campanhas eleitorais inaugurado na campanha do atual senador Eduardo Azeredo ao governo de Minas em 1998 e reciclado pelo governo petista. Data daquela época o início das atividades subterrâneas de Marcos Valério junto às estatais e ao governo federal. Porém, como diz o surrado ditado “pau que nasce torto, nunca se endireita”, a grande imprensa cachimbeira tratou logo de escamotear o DNA tucano do valerioduto e persistiu a disseminar a falsa versão do suborno de parlamentares pelo governo do PT. Pouquíssimos jornalistas e órgãos de mídia, entre eles a revista Carta Capital e os jornalistas Mino Carta e Paulo Henrique Amorim, tiveram a coragem de sustentar teimosamente a verdade factual.
Agora, na iminência de ser denunciado pelo Ministério Público Federal e abandonado à fogueira pelos companheiros tucanos, Eduardo Azeredo resolveu dar com a língua no bico e acusar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de ter tido a sua campanha presidencial de 1998 também irrigada com recursos do valerioduto mineiro. Vale ressaltar que, de acordo com o relatório da Polícia Federal concluído em julho do corrente, a maior parte destes recursos originaram-se de verbas desviadas de estatais. Sobrou, ainda, para o até então inatacável tucano Aécio Neves que, de acordo com a PF, recebeu, do valerioduto, cerca de R$ 110 mil para sua campanha a deputado federal naquele ano. O total movimentado pelo esquema mineiro atinge aproximadamente R$ 100 milhões. Só a título de comparação: “o maior escândalo de corrupção da história do Brasil”, conforme denunciado pela oposição e pela maior parte da mídia, movimentou um total aproximado de R$ 55 milhões.
O mais engraçado é ver agora o senador e o ex-presidente afirmarem candidamente que nada sabiam, bem como os líderes tucanos e grande parte da imprensa preconizarem, hipocritamente, o cuidado nas investigações e nas denúncias. Justamente o contrário do que fizeram com os envolvidos no chamado mensalão petista que, conforme bem observa o jornalista Leandro Fortes de Carta Capital, não tiveram direito à presunção de inocência a qual se reserva apenas aos benquistos pela mídia tão denodada na defesa dos interesses dos verdadeiros e seculares donos do poder os quais não se sentem adequadamente representados pelo governo petista e sua trupe de desastrados.