Na década de 80, o filósofo alemão Jürgen Habermas previu a queda da democracia por conta dos desmandos da televisão privada. O distinto filósofo advertia para o perigo do progressivo controle da mídia pela iniciativa privada o que a tornaria mero instrumento na defesa dos interesses corporativos. O que ocorre, na verdade, neste início de século XXI, é que a mídia, cada vez mais, se torna um mero instrumento das corporações na busca do seu verdadeiro objetivo: o controle dos estados e das suas políticas para a gestação e manutenção de um ambiente propício aos negócios e negociatas em detrimento dos interesses mais importantes das nações. Uma nova forma de totalitarismo cevado, não pela brutalidade das armas, mas, pela ilusão do desfrute de uma suposta democracia ao se permitir que a plebe vote ao mesmo tempo em que a ela se nega a totalidade das informações necessárias ao melhor julgamento possível. Democracia só a estritamente necessária para dar uma pátina de legalidade às decisões interesseiras dos prepostos instalados no poder. Vale mesmo até esticar o conceito de liberdade de expressão e de opinião para abarcar as seguidas tentativas de sabotagem do estado de direito caso o eleito de plantão hesite em cumprir à risca as prescrições dos donos do poder.
Tal quadro é, precisamente, mais alarmante na América latina. Está implícito, por exemplo, na maneira como a mídia brasileira, em geral, vem se manifestando em relação à decisão do governo Chávez de não renovar a concessão da Rede Caracas de Televisão (RCTV). As opiniões disseminadas pela nossa imprensa mostram o desequilíbrio que impera nas redações a contaminar quase toda a cobertura política deste país e d’além fronteiras. Ou por outra, apenas um lado da questão é apresentado ao público. O lado que interessa aos patrões. É mais do que notória a verossimilhança de caracteres entre os donos da mídia brasileiros e venezuelanos. No caso das estações de rádio e televisão, os patrões se valem das prerrogativas das suas concessões para defenderem pontos de vistas políticos e econômicos que não necessariamente interessam ao restante da nação, mas, apenas a eles e aos seus iguais. No Brasil, em várias oportunidades, como em 1964, os órgãos de mídia ultrapassaram todos os limites da legalidade. Como bem sabido, as conseqüências deste tipo de vandalismo político costumam ser funestas. Nas últimas eleições presidenciais, novamente, grande parte da imprensa brasileira adentrou os limites da lei.
Na Venezuela, a situação é diferente apenas por ser mais grave. Mais de 90% da mídia venezuelana é controlada pela iniciativa privada. Supõe-se que, ao receberem as suas concessões, os seus proprietários deveriam pautar a sua conduta nos limites da lei. É direito de qualquer cidadão, bem como de qualquer jornal, estação de rádio ou de televisão, opor-se a qualquer governo, desde que respeitando os limites legais, entre os quais, o respeito à constituição. Fazer oposição, mesmo que virulenta, a um governo é uma coisa. Pregar repetidamente o golpe para a derrubada de um governo constitucional é outra coisa completamente diferente. Um crime. E foi exatamente por isto, por terem atuado de forma criminosa, que os proprietários da RCTV foram punidos com a perda da concessão para transmissão em canal aberto. Lembremos que os donos da RCTV ainda saíram no lucro por não serem processados e, ainda, poderão continuar a transmitir por cabo. Assim, não procedem, de forma alguma, as lamúrias da imprensa brasileira contra a punição da tvzona “só porque apoiou ativamente a tentativa de golpe de estado em abril de 2002, tadinha!” Ora, ora, ora. Só por este crime contra a legalidade, a principal TV venezuelana já deveria ter sido punida e os seus donos presos. No entanto, foi-lhes permitido saírem ilesos. Ainda assim, a RCTV persistiu a propagandear a necessidade da derrubada do governo chavista. Como bem observa o jornalista Alon Feuerwerker, uma concessão de TV não é vitalícia e, se o governo pode dá-la, também deve ter o direito de tirá-la. E, ainda, segundo o jornalista, veículo de comunicação que se mete demais na política partidária arrisca-se a receber o tratamento político-partidário correspondente.
Voltemos ao Brasil. Aqui, toda a choradeira hipócrita dos órgãos de mídia disfarça a verdadeira causa pela qual eles se batem: a liberdade de não informar adequadamente, a liberdade de escamotear fatos e a liberdade de distorcer informações de acordo com os interesses inconfessáveis dos seus proprietários e da elite (sim, ela ainda existe!) selvagem que desgraça este país. Qualquer interferência do estado para inibir estes desmandos, mesmo que dentro das suas atribuições constitucionais, é logo vista e noticiada como atentatória à liberdade de expressão e de opinião. Nada mais do que hipócrita retórica moralista para esconder os vícios dos patrões da imprensa. Resquícios, ainda, da antiga e libidinosa moral senhorial sobre os moradores da senzala.
O jornal inglês “The Guardian” publicou, no último sábado, uma carta, assinada por 24 personalidades britânicas, manifestando apoio à decisão do governo venezuelano de não renovar a concessão da RCTV para transmissão em canal aberto. Os signatários afirmam que a decisão do governo da Venezuela foi legítima. A tal televisão foi punida porque usou de sua licença para afrontar as leis do país e atentar contra um governo democraticamente eleito ao pugnar, repetidamente e em cadeia nacional, pela sua derrubada. A carta esclarece, ainda, que a TVzona não foi fechada, pois, poderá continuar a transmitir por cabo. Ao final, fica a pergunta: o que aconteceria se a BBC e a ITV fossem flagradas participando de um complô contra o governo britânico?
Vejam mais um exemplo da visão estreita (ou interesseira?) da maioria dos economistas e analistas econômicos que infestam a imprensa do país. Quando o governo aumentou o salário mínimo de R$ 350 para R$ 380 no início de abril, o reflexo condicionado desses senhores e senhoras imediatamente deu destaque à sobrecarga adicional nas contas da Previdência: R$ 5,9 bilhões. Para eles, uma verdadeira ofensiva panzer sobre as contas do governo. Pois muito bem. De acordo com um estudo divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), por causa deste aumento, a economia brasileira receberá uma lufada de R$ 16,8 bilhões, dos quais, R$ 4,1 bilhões, serão arrecadados pelo governo na forma de impostos sobre o consumo. Este detalhezinho não mereceu nenhuma referência dos nossos brilhantes comentaristas.
Na imagem acima, vemos um flagrante do fisiologista russo Ivan Pavlov observando atentamente o comportamento de um antepassado dos atuais comentaristas econômicos brasileiros frente às medidas econômicas do governo Campos Sales em 1900.
Alguns andam a cobrar-me mais respeito à figura papal depois de algumas metafóricas chicotadas que eu andei aplicando no santo lombo. A eles eu advirto: não sou eu quem ofende o papa. É ele quem me ofende!
Ao assistir o desenrolar desta chatíssima novela envolvendo a instalação de uma usina siderúrgica aqui no Ceará, cada vez tenho mais certeza que a raiz do problema está no projeto mal feito. Uma mistura de incompetência e desonestidade. Ou seja, os tucanos cearenses, como de praxe em tudo que envolve os projetos pessedebistas no Ceará e no Brasil, planejaram uma empresa PRIVADA, de capitais PRIVADOS, porém, subsidiada direta ou indiretamente com dinheiro público. A exemplo do que o governo do FHC, o “próximo champanhe”, fez com os fundos de pensões das estatais ao tempo das privatizações criminosas, os nossos tucanos tentam enfiar, goela abaixo da direção da Petrobrás, um acordo que, segundo o Jornal Valor Econômico, pode causar um prejuízo de até US$ 1 bilhão à petrolífera em 20 anos. Ora, a Petrobrás é uma empresa de economia mista. Tem milhares de acionistas em todo o mundo, entre os quais, o Governo Federal é o sócio majoritário. Portanto, a sua direção tem que prestar contas a todos eles e à sociedade brasileira. Não pode, em hipótese nenhuma, aceitar um prejuízo desta magnitude apenas para favorecer um consórcio de investidores nacionais e estrangeiros em detrimento dos seus acionistas e do restante do país. Se a direção da Petrobrás decidiu romper o acordo anterior e reajustar o preço do gás a ser vendido para a tal siderúrgica, muito provavelmente (e neste “provavelmente” estou fazendo uma concessão aos aiatolás do jornalismo cearense) foi porque o contrato permitia tal ação. Gostaria muitíssimo que a desinteressada imprensa cearense, que não costuma pagar IPTU das suas sedes, mostrasse a parte do contrato que supostamente impede a Petrobrás de corrigir o preço deste bendito gás e, não apenas, a parte que interessa a ela e aos investidores, para que assim fique demonstrada a total incompetência do departamento jurídico de uma das maiores e mais eficientes empresas petrolíferas do mundo.
Dada a inviabilização do empreendimento por conta do preço do gás, os nossos políticos, tucanos à frente, resolveram espetar a conta da diferença do preço nas costas dos combalidos cofres do governo cearense. Ora, vejam só: o Ceará é um dos estados mais pobres da federação, o seu governo vem, há 04 anos, contingenciando verbas por causa do rombo espetacular que o último governo do senador mustelídeo deixou nas finanças públicas e, agora, deverá arcar com US$ 16 milhões de dólares anuais de renúncia fiscal durante 20 anos para viabilizar o projeto tucano-coreano-italiano. Ou seja, o governo estadual não tem dinheiro para investir em saúde, educação, segurança, infra-estrutura, para abrir a UTI 02 do Hospital Geral de Fortaleza, mas, vai aceitar uma tungada de US$ 320 milhões no total, segundo o Jornal O POVO, para viabilizar os lucros dos sacrossantos investidores. Isto sem adicionarmos o que já foi gasto pelo governo estadual com o preparo do terreno e demais obras para permitir a construção da siderúrgica. Segundo o ideário neoliberal dos tucanos, o estado costuma ser ineficiente, incompetente e perdulário. Exceto quando se trata de abrir as burras à “eficiente”, “competente” e “austera” iniciativa privada. E ainda: o modelo de industrialização à custa de incentivos fiscais tem se tornado, desde o início da década de 90, uma bola de neve que vem comprometendo, progressivamente, as finanças dos estados brasileiros. Depois não perguntem por que os governadores, de pires nas mãos, costumam organizar romarias a Brasília em busca de verbas e perdão de dívidas.
E o que ganha o pobre povo cearense com isto? Apenas 1600 empregos diretos e indiretos. Muito caro. Caríssimo! Espero que, pelo menos, os empregados tenham direito à carteira assinada e não sejam obrigados à servidão do trabalho mediado por cooperativas como tem sido a regra imposta desde que o tassismo aqui se aboletou em 1987.
Mas, infelizmente, ainda tem mais enredo nesta comédia. Um dos maiores erros do projeto está na tecnologia a ser empregada na Ceará Steel que, ainda segundo o Valor Econômico, é de origem italiana, pertencente a uma das empresas investidoras e baseada na redução direta do minério de ferro e no uso de fornos elétricos para a extração do aço. Tal tecnologia só é economicamente viável em países que disponham de grandes volumes de gás, como o Irã, o México, a Arábia Saudita e a Venezuela. Estima-se que a usina precisará de 1,2 milhões de metros cúbicos para funcionar, 40% do consumo dos atuais produtores de aço no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Siderurgia. A grande maioria das siderúrgicas usa alto-forno e carvão como redutor o que sai bem mais barato em países que não produzem gás em volume suficiente. Ou seja, o produto final da tal usina sairá com o custo bem mais elevado do que o da concorrência. Assim, a garantia do lucro dos investidores não virá do que eles conseguirem produzir e vender, a exemplo de qualquer empreendimento saudável nesta era capitalista, mas, unicamente, dos subsídios com o dinheiro público!
Enfim, um empreendimento que necessita de US$ 320 milhões de subsídios é verdadeiramente inviável economicamente e, ainda, representa uma ameaça REAL de acabar em sanções da Organização Mundial do Comércio a todas as exportações brasileiras de aço. Até hoje, os investidores, a mídia histérica e farisaica deste estado e os políticos demagogos não deram uma resposta satisfatória a este argumento.
Mas, quem sabe, o presidente Lula, sempre sensível, em demasia, às pressões políticas e, talvez, temeroso de ficar queimado no Ceará, por conta, também, da besteira de ter mandado aquela refinaria para Pernambuco contra todos os pareceres técnicos, resolva obrigar a Petrobrás a engolir a pílula amarga. Seria, mais uma vez, a constatação de que ainda falta muito para o Brasil entrar realmente na era capitalista. Ou que, algum dia, virá a dar certo. O que eu já começo a duvidar.
Hoje este blog rende homenagens ao maior atacante do futebol brasileiro desde que Pelé pendurou as chuteiras. Romário merece todas as celebrações pelo seu milésimo gol. Não apenas pelo grande e raro craque que é, mas também por todos os belos e inesquecíveis momentos legados à história do único esporte que pode ser erigido à categoria de arte. E tinha mais era que ser de pênalti, o momento mais solene do futebol.Bem que ele merecia a execução do hino nacional antes da cobrança.
Por falar em ecumenismo e na sua rejeição pelo papa Ratzinger, não posso deixar de imaginar, com divertimento, que aquela benção do rabino Henry Sobel, que a santidade se viu obrigadaa aceitar, foi uma contundente, elegante e generosa provocação ao pouco tolerante espírito papal.
Nos últimos dias, tenho visto opiniões, na nossa mídia, a favor do direito do papa Bento XVI manifestar-se em assuntos polêmicos como o aborto, o divórcio, a união civil de homossexuais, o ensino religioso e que tais. Para alguns articulistas, a infalível santidade não afronta, de forma nenhuma, a laicidade do estado brasileiro quando declara a sua reprovação de práticas e de idéias consideradas pecaminosas e atentatórias, segundo a doutrina da sua igreja, à dignidade humana. Eu concordaria com o direito de manifestação papal se ele deixasse explícito que as suas prescrições são dirigidas unicamente ao rebanho católico e não à sociedade em geral. Mas, é claro que ele nunca fará isto. E por isso eu acho que, com esta dubiedade, o papa Bento afronta, sim, a nossa constituição laica quando despeja em cima de todos nós o moralismo hipócrita de uma igreja eivada de sujeiras varridas para debaixo dos tapetes santos do Vaticano. Como se não bastasse, ele ainda recomendou, ao nosso governo, a instituição do ensino religioso nas escolas. Se isto não for uma afronta à laicidade do estado, eu sou o frei Galvão. E não venham querer me convencer que este mesmo papa, que já declarou publicamente a sua aversão ao ecumenismo quando disse, peremptoriamente, que as demais religiões não passam de meros desvios da fé “verdadeira”, a católica, tenha se referido genericamente ao ensino religioso. Fez muito bem, o Presidente Lula, quando reafirmou, diante do infalível, a condição laica do estado brasileiro.
Mas, isto não quer dizer que, diante de situações extremas e gravíssimas, como os crimes das ditaduras militares sul-americanas, a Igreja não possa ou não deva se manifestar. Aí sim, em tais situações, a Igreja não apenas pode como tem a obrigação de denunciar tais crimes, estes, sim, verdadeiramente atentatórios à vida e à dignidade humanas. Da mesma forma e pelo mesmo motivo, pode e deve cobrar do estado providências para a correção da perfídia social que nos envolve.
Mas, alguém haveria de me questionar.: “Isto também não seria interferência no nosso estado laico?” E eu responderia: “Não!” Homossexualismo, aborto, preservativos, divórcio, etc, não representam nenhum tipo de atentado aos valores penosamente estabelecidos e universalmente aceitos como inerentes à dignidade humana e à vida em sociedade. O contrário ocorre com a nossa tragédia social e com os massacres perpetrados pelos regimes autoritários. A ninguém deve ser dado o direito de omitir-se diante da barbárie. Principalmente quando esta é perpetrada por um estado desviado da sua função hobbesiana qual seja cuidar para que o contrato civilizatório não seja solapado pela maldade inerente à natureza humana.
Alguém pode aceitar ou recriminar a união civil de homossexuais, por exemplo, dependendo dos seus vieses morais, éticos ou religiosos. É justamente para garantir este direito ao livre pensamento que a maioria dos regimes políticos pós-iluministas inventou de implantar a laicidade nas suas constituições. O pensamento religioso, com a sua visão e interpretação do mundo fortemente enviesados pela fé, tende, sempre, a atuar visando à inibição da livre circulação das idéias o que, como a história sobejamente demonstra, quase sempre descamba para a tragédia. Se a igreja em que o ilustrado pontífice reina de forma absoluta escamoteia isto ao mesmo tempo em que faz acreditar que as pílulas do seu mais recente santo são mais importantes para o aperfeiçoamento da civilização do que as filosofias do empirista Hobbes e dos iluministas, então, fica cabalmente demonstrado que o suposto sacrifício de Cristo na cruz não foi suficiente para salvar a Santa Madre do seu mais profundo pecado: o obscurantismo.
Bento XVI, o infalível, vive a condenar o materialismo do mundo secular, indutor, segundo ele, da cultura de morte que predomina na atualidade. Eu até posso concordar com a santidade quanto a esse negócio de cultura de morte, só que, por outros motivos. Mas, voltando à sopa: o que dizer da enorme ostentação exibida pela igreja durante esta visita papal? O que o papa tem a dizer sobre a história da igreja que, a nós, mundanos, pretende dar lições de humildade e comedimento? Será que a santidade ainda tem, na memória, os lamentáveis acontecimentos referentes ao escândalo do Banco do Vaticano cuja história foi devidamente varrida para debaixo do tapete no início do pontificado de João Paulo II, o santo?
Em verdade vos digo, Bento (ou Benedictus, ou Benedito, sei lá...) XVI deve, antes, esfolar os joelhos em genuflexão e pedir perdão ao seu deus e à raça humana pelo enriquecimento ilícito da igreja ao longo da história (no século 13, a igreja já era dona de 1/3 do solo da Europa), pela perda total do compromisso com a fraternidade pregada e praticada pelos cristãos primitivos, pelos massacres das cruzadas, pela corrupção antiga e atual que medra no Vaticano, pela condescendência imoral com os padres e clérigos pedófilos, pela abjeta covardia diante dos nazistas, pelo colaboracionismo sabujo com a ascensão do neoliberalismo (supremo exemplo atual de idolatria materialista), pela inquisição infame para, assim, ter condições morais de atualizar a humanidade nos assuntos humanistas.
E ainda tem cretino por aí censurando o Presidente Lula por ele não ter se ajoelhado diante da suposta magnificência papal. E, daí? FHC, que se declara ateu, ajoelhou-se diante de João Paulo, o santo, e ainda beijou aquele anel. De tanto esmerar-se na arte da hipocrisia, o nosso heróico sociólogo ainda vai acabar canonizado.
Pelo jeito, vai demorar muito para nos vermos livres de FHC. Agora, o infeliz deu para emular Marco Pórcio Catão (234 – 149 a.C.), general e estadista romano que, da tribuna do senado, pregava incansavelmente a destruição de Cartago, cidade do norte da África e rival de Roma. “Delenda Carthago!” (Destrua-se Cartago!) era a frase que encerrava todos os discursos daquele tribuno. Até que, de tanto azucrinar, finalmente, o obsessivo senador conseguiu que Roma devastasse a cidade, num triste episódio que encerrou uma longa campanha militar conhecida como “Guerras Púnicas”.
E agora, me vem o faceiro FHC convocar todas as forças da oposição numa campanha púnica contra o governo Lula para, se não derrubá-lo, pelo menos, atravancar-lhe o caminho até a inviabilização total. Pelo menos é o que se pode depreender do artigo que o infeliz assina nas edições de hoje do Estadão e do “Globão”:
“...o povo cansou de ouvir os políticos. A oposição não pode se restringir ao Congresso Nacional. A política contemporânea requer a combinação da mídia com a ação direta”.
Para resumir: “Delenda Lula!”. Indubitavelmente, já há algum tempo, a mídia vem se desdobrando para atender ao desejo do seu amado e boquirroto ídolo. Até agora e felizmente, sem sucesso. E, diante deste fracasso, o termo “ação direta” se entope de significados.
Enfim, embora responsável por um dos piores governos que este país infeliz já teve desde que Tomé de Souza desembarcou na Bahia em 1549, FHC não se manca e consegue ser ainda pior como ex-presidente.
Manter este blog é, para mim, além de uma atividade lúdica também uma forma de contribuir modestamente na lida contra qualquer forma de obscurantismo. Por isso, hoje, abro o espaço para solicitar a vocês, caríssimos leitores, atenção para o “Manifesto pelo Direito à Liberdade de Pesquisa”. Como qualquer pessoa medianamente informada sabe, na pesquisa com células-tronco está, atualmente, a maior esperança de cura para um grande número de doenças graves e, até agora, incuráveis. No entanto, o desenvolvimento das pesquisas nesta área, no Brasil, está ameaçado pelo fortíssimo e histriônico “lobby” religioso fundamentalista. A proibição das pesquisas com células-tronco, como querem os fundamentalistas, além de ser de uma iniqüidade hedionda, pode, em pouquíssimo tempo, colocar o nosso país a anos-luz de distância dos rápidos progressos na área da biotecnologia e, assim, acentuar, ainda mais, o nosso status periférico.
Pela liberdade de pesquisa e progresso da humanidade
Prezadas e prezados,
A possibilidade de uso das células-tronco embrionárias para pesquisa de doenças hoje incuráveis está ameaçada no Brasil. Daí este manifesto pelo direito à liberdade de pesquisa, ao progresso dos tratamentos e à esperança de cura. Se concordar com ele, junte-se a nós e assine-o. O seu apoio é fundamental. O documento será encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF). O link para adesão está no final. Repasse-o aos amigos e amigas, para multiplicá-lo. Agradecemos imensamente.
Conceição Lemes Pró-células-tronco embrionárias
Ao Supremo Tribunal Federal (STF)
Direito à esperança de cura e vida, sim. Ao obscurantismo, não.
Brasília, 20 de abril de 2007. Definitivamente, um marco na história do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 178 anos de existência, a mais alta corte do Brasil realizou, pela primeira vez, uma audiência pública. Objetivo: ouvir cientistas sobre a lei que autoriza a realização no país de pesquisa com células-tronco embrionárias. Pudera. É a aposta de investigadores do mundo inteiro para a cura de várias doenças ainda incuráveis, como mal de Parkinson, diabetes, doenças neuromusculares e secção da medula espinhal por acidentes e armas de fogo.
A avançada lei foi aprovada pelo Congresso Nacional por placar estrondoso: 96% dos senadores e 85% dos deputados federais deram-lhe a vitória. O presidente Luís Inácio Lula da Silva fez o mesmo. Rapidamente a sancionou. Só que ela parou no STF porque o subprocurador-geral da República, Cláudio Fonteles, alegou que é inconstitucional. Questionado sobre se sua ação não teria motivação religiosa, o franciscano Fonteles acusou a geneticista, professora e cientista Mayana Zatz de viés judaico. Fonteles disse ao jornal Folha de S. Paulo: “A doutora Mayana Zatz, que é o principal elemento de quem pensa diferentemente da gente, tem também uma ótica religiosa, na medida em que ela é judia e não nega o fato. Na religião judaica, a vida começa com o nascimento do ser vivo. Então, ao defender a posição dela, ela defende a posição religiosa dela, que é judia e que a gente tem de respeitar”.
Acontece que:
1) A posição de Mayana Zatz em defesa da pesquisa com células-tronco embrionárias não é pessoal e muito menos religiosa. A geneticista participou da audiência pública no STF como porta-voz da Academia Brasileira de Ciências, da qual é membro. Sua postura é a mesma defendida pelas academias de ciências de outros 65 países.
2º) Há 30 anos Mayana trabalha com doenças neuromusculares letais ou altamente incapacitantes. Já viu milhares de crianças, jovens e adultos afetados morrerem sem qualquer chance de cura. Tanto que, para melhorar-lhes a qualidade de vida, fundou a Associação Brasileira de Distrofia Muscular (Abdim), da qual é presidente. Mayana é professora titular de Genética, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano e pró-reitora de pesquisas da USP. Publicou 280 trabalhos científicos já citados mais de 4.500 vezes.
3º) Agora, pela primeira vez, vislumbra, num futuro próximo, uma possibilidade real de tratamento para várias doenças neurodegenerativas. Sua esperança está justamente nas células-tronco embrionárias. Somente elas têm a capacidade de se diferenciar nos mais de 216 tipos de tecido do corpo humano.
4º) Mayana, como outros cientistas brasileiros, trabalha há alguns anos com células-tronco adultas. Os resultados preliminares de suas investigações – bem como os de outros presentes na audiência do STF e diretamente envolvidos com tentativas terapêuticas para diferentes condições (problemas cardíacos, diabetes, derrame, mal de Chagas, esclerose lateral amiotrófica e paraplegia decorrente da secção da medula) – mostram, no entanto, que a pesquisa com células-tronco embrionárias é fundamental. São elas que ensinarão os cientistas a programar as células-tronco adultas, de modo que se transformem nos tecidos desejados. As células-tronco embrionárias podem ser obtidas a partir de embriões de até 14 dias.
5º) A lei brasileira permite a utilização de embriões produzidos em laboratório para fins de reprodução assistida. Porém – atenção! – não abrange todos. Autoriza apenas o uso daqueles inviáveis para gestação ou congelados há mais de três anos, cuja probabilidade de gerar um ser humano é praticamente zero. A lei prevê mais: os embriões só poderão ser utilizados após autorização dos genitores. Portanto, aqueles que tiverem qualquer restrição de ordem moral ou religiosa não terão seus embriões usados para fins de pesquisa. Com o passar do tempo, os embriões deterioram-se inexoravelmente, perdendo o “prazo de validade”. Por que então não utilizá-los de forma ética e responsável em benefício do futuro e da evolução da humanidade, salvando vidas?
6º) Na prática, conseqüentemente, proibir a pesquisa com células-tronco embrionárias significará, de um lado, continuar dando aos embriões excedentes nas clínicas de fertilização um habitual e inglório destino: o lixo. De outro, tirará a esperança de cura – portanto, de vida – de milhares de pessoas. Ninguém tem esse direito.
7º) A luta pela vida está acima dos credos. Logo, não se pode misturar ciência com religião, sob o risco de se voltar ao obscurantismo da Idade Média – a idade das trevas.
8º) O Estado brasileiro é laico. Assim, a tentativa de desqualificar os argumentos científicos de Mayana com insinuações anti-semitas é lamentável. No mínimo, contraria a tradição brasileira de tolerância e respeito à diversidade religiosa.
9º) Felizmente, Mayana não está sozinha. A defesa da pesquisa com células-tronco embrionárias já permeia largos segmentos da comunidade científica e da sociedade civil brasileiras.
Por tudo isso, nós – de diferentes religiões, etnias, profissões, níveis socioeconômicos, idades – repudiamos a desesperada manobra para desviar o foco do debate. À Mayana, nosso apoio e solidariedade irrestritos. A sua batalha pela vida é também de todos nós. Direito à esperança de cura e à liberdade de pesquisa, sim. Ao obscurantismo, não.
E o PMDB velho de guerra não perde mesmo nenhuma oportunidadezinha para chantagear o governo. Desta feita, tendo que indicar quatro titulares e quatro suplentes para a recém-nascida CPI do Apagão Aéreo, oferece duas listas ao governo Lula: numa, constariam nomes de deputados mais rígidos, não necessariamente mais honestos, e, na outra, de parlamentares mais, digamos assim, complacentes com o governo. Lula decide. Em troca o partidão decano deseja a nomeação de mais apaniguados para cargos do segundo escalão.