“Em país algum, em literatura alguma, talvez nenhum autor se tenha tanto citado a si mesmo como o senhor Sílvio Romero. Dificilmente se lhe encontrará uma página em que Sílvio Romero não cite Sílvio Romero. Jamais se viu tão extraordinário caso de masturbação intelectual.”
“Não costumo ler o sr. José Veríssimo, principalmente depois do seu último concurso de história geral e do Brasil, em que se revelou duma ignorância abaixo de qualquer classificação. Já dantes raramente o lia, por causa da chateza de suas idéias, a confusão do seu espírito, o tom rebarbativo de seu estilo, a irritante pretensiosidade de seu dogmatismo, disfarçado entre conjunções e advérbios contraditórios.”
Era desta forma, caríssimos, que, por volta de 1910, dois intelectuais, no caso José Veríssimo e Sílvio Romero, rosnavam "carícias" gráficas entre si na imprensa carioca.Não enfastiados, ainda reforçavam os “argumentos” com adjetivos suculentíssimos: “matuto”, “paxá da crítica indígena” e “manipanço provinciano”, pespegados em Romero, e “patureba”, “tucano (Vixe! Nessa época já era ofensa???) da literatura brasileira” e (apelação racista) “mulato escuro”, esfregados na cara de Veríssimo.
A virulenta polêmica entre os beletristas José Veríssimo e Sílvio Romero fez a festa dos leitores dos jornais e revistas cariocas naquele longínquo ano, tendo persistido por mais de três anos. Mas, não foi a única. Ocorreram outras contendas estupendas: Ernesto Carneiro Ribeiro X Rui Barbosa, Carlos de Laet x Camilo Castelo Branco, Júlio Ribeiro X padre Sena Freitas, Hemetério José dos Santos X Machado de Assis e muitas outras. Essa era a moda na imprensa brasileira no início do século XX. Nenhum articulista, jurista, escritor, crítico, jornalista ou, até mesmo, padre podia se considerar realizado na atividade literária ou jornalística enquanto não pudesse desfilar, para a sociedade da época, a dignidade de polemista. E quanto mais ilustre e renomado fosse o adversário, maior o prestígio do polemista. Esse hábito de molhar a pena em ácido sulfúrico, como dizia Assis Chateaubriand, sobreviveu até meados do século passado, época em que os mais notáveis e imbatíveis polemistas eram o corvo Lacerda e o escritor Nelson Rodrigues. Posteriormente, com o florescimento do reinado da objetividade e da insipidez na imprensa brasileira, tais pelejas foram desaparecendo paulatinamente. E, ainda, acreditava-se que a chatíssima moda do politicamente correto tivesse enterrado de vez esse costume.
Qual o quê! Nos últimos tempos, a internet, através da praticidade dos blogs e das páginas pessoais, fez renascer este gênero literário, se é que podemos chamá-lo assim. Talvez, pela menor estatura intelectual, os contendores atuais não conseguem sustentar uma polêmica por tanto tempo e com a mesma qualidade quanto os seus antecessores. Mesmo assim, os internautas têm assistido a altercações interessantíssimas. Assim, pegas brabíssimos entre Mino Carta X Diogo Mainardi e Alberto Dines X Olavo de Carvalho bateram recordes de audiência na rede. O mais recente, e ainda rolando nos respectivos blogs, tem confrontado os jornalistas Luiz Carlos Azenha e Reinaldo Azevedo. Tudo a propósito de um artigo que Nelson Mota publicou na “Folha de São Paulo” desancando o projeto da TV estatal. Luiz viu e não gostou. Azevedo resolveu tomar as dores do produtor musical e o pega pra capar virtual teve início. A quem interessar, aí estão os links:
Ricardo Teixeira, o presidente de alta periculosidade da CBF, anda em peregrinação pelo país já utilizando a mera possibilidade do Brasil sediar a Copa do Mundo de 2010 como moeda de troca política. Isto, associado ao descalabro financeiro em que se tornou a organização do PAN 2007, me faz prever que maracutaias ainda mais escabrosas ocorrerão na organização da dita Copa. Portanto, fico aqui, cruzando todos os dedos das mãos e dos pés, torcendo para que a FIFA escolha a Colômbia como sede.
Fui hoje à locadora de vídeo em busca de alguma coisa para tornar menos monótono o domingão. Após escolher alguns títulos, encaminhei-me, resignadamente, à fila do caixa. A mocinha martelava sofregamente um teclado de computador para atender cerca de meia dúzia de pessoas à minha frente. Valendo-me da minha proficiência na Lei de Murphy, pensei: “antes de chegar a minha vez vai acontecer alguma coisa com o sistema”. Acredite ou não, caríssimo leitor, justamente ao chegar a minha vez, o dito sistema travou. Olho para a tela do monitor e constato: WINDOWS! Enquanto a atendente, em meio a suspiros e indecorosidades mudas (dava para escutar os seus pensamentos), lançava mão da velha BIC, lembrei-me do meu amorzão, Leninha, adepta assumida da indefectível e eficiente caneta e, ao mesmo tempo, pensei na triste situação da humanidade, mantida refém de um vigarista que, vendendo para o mundo inteiro um produto de péssima qualidade, tornou-se o ente mais rico que, em toda a história humana, já caminhou sobre a terra.
Então, como sói acontecer aos delirantes como eu, passei a divagar sobre a precariedade das traquitanas eletrônicas concebidas para facilitar a nossa vida e que costumam falhar miseravelmente diante da mínima lida, destroçando a paciência de qualquer mortal equipado com um mínimo de córtex cerebral. Sim senhor, até um prosaico liquidificador é muito mais eficiente do que um PC. Sempre que você colocar banana e leite naquele eletrodoméstico, pode ter certeza que a bananada vai sair, no entanto, ao iniciar qualquer trabalho no PC, ninguém, em sã consciência, pode estar certo de chegar ao fim da tarefa.
Mas, por que o Windows é tão ruim? Para responder a esta questão eu precisava comparar a porcaria produzida pela Microsoft com algum outro sistema digital de qualidade inquestionável. Alguma coisa tinha que servir como padrão de comparação. Mas qual??? Aí deu-se o estalo! Evoquei o Professor Dawkins e lembrei do único sistema digital que vem funcionando maravilhosamente há mais ou menos cinco bilhões de anos, com uma taxa de erros desprezível: o código genético. A única e escassa diferença é que o sistema operacional com que o Bill vem enrolando a humanidade é binário, enquanto o código da vida é quaternário, baseado em dois pares de bases nitrogenadas: adenina-timina e guanina-citosina. Mas, tal diferença não invalida a comparação. É provável que, nas águas primordiais, mais de um sistema de transmissão de informações genéticas tenha vindo à luz, sendo o DNA o mais bem sucedido. A razão do sucesso? A competição! Ao mostrar-se mais eficiente, bem menos sujeito a erros, o açúcar habilitou-se inexoravelmente como guardião da receita da vida, suprimindo os demais concorrentes. Já o Windows, desde que deu as caras em 1985, nunca enfrentou qualquer concorrência importante. Conseqüentemente, o seu dono nunca se viu pressionado a melhorar o produto, exceto por algumas guaribadas para enganar os bestas e cobrar mais caro. Por isso, amigos, em verdade vos digo, embora a pirataria não seja recomendável, posto que é ilegal, o Bill merece... como merece!!!
Dia de luz, festa do sol e o barquinho a deslizar no macio azul do mar, tudo é verão e eu em casa assistindo, pela enésima vez, ao filme “A Malvada (All About Eve)”. Grande obra de 1950, dirigido por Joseph L. Mankiewicz e produzido por Darryl F. Zanuck. Existem pessoas que são obcecadas por determinados filmes. Conheço gente que é maluca por “Casablanca”, e outros, como a minha mulher, que adoram “... E o Vento Levou”. Existem, até mesmo, aqueles que se deixam enlevar por baboseiras como a chatíssima série “Guerra nas Estrelas”. Quanto a mim, além de todos os filmes da Audrey Hepburn, não me farto de assistir ao clássico supracitado. Seja pela grandeza do elenco, encabeçado pela ótima Bette Davies, e que, qual alinhamento de astros no firmamento, só se reuniu raramente na história do cinema, seja pelo primoroso drama que mostra a traição levada a cabo por trás do desvelo e da suposta fidelidade. Aos desavisados surpreende que o papel da tal malvada não coube a Bette Davies, mas à angelical Anne Baxter, sendo aquela apenas a principal vítima desta na trama. O profissionalismo do elenco é atestado pelo fato das atrizes Celeste Holm e Bette Davies odiarem-se mutuamente e, mesmo assim, erigirem ótimas interpretações de duas melhores amigas. A agilidade da direção deve-se, em parte, ao desprendimento do produtor Zanuck que não se fez de rogado ao constatar os excessos do roteiro original, também assinado por Mankiewicz, e rasgou-lhe páginas e páginas, desbastando-lhe as redundâncias. Ressalto, também, os diálogos inteligentes, fato comum nos clássicos produzidos entre as décadas de 30 e de 60 do século passado. Interessante é ver Marilyn Monroe, em início de carreira, no papel de uma candidata ao estrelato que, egressa de uma... digamos assim... casa de recursos (de nome “Copacabana”), despontava para o anonimato. Bem ao contrário do que lhe aconteceu na vida real. Conta o escritor Ruy Castro que o jornalista Paulo Francis inspirou-se no personagem de George Sanders, um crítico teatral inescrupuloso, para criar os maneirismos que o celebrizaram.Enfim, durante décadas este filme foi o recordista de indicações para o Oscar, catorze ao todo, tendo recebido três estatuetas (melhor filme, melhor direção e melhor roteiro). Tal feito, só foi igualado, mais de quarenta anos depois, vejam só, por aquela estultice chamada “Titanic”,o que tristemente nos evidencia a perda progressiva, pela civilização ocidental, de algo importantíssimo que fundamentava os grandes filmes daquela época: a adultícia, em seu melhor sentido. Justamente aquilo responsável pela criação desta mesma civilização com tudo o que nela existe de bom e de ruim.
Quem vai ao mar, perde o lugar e quem vai ao vento, perde o assento
E agora? Depois que as declarações do tal Abdenur (aquele diplomata inconformado com a perda da boquinha em Washington) sobre um suposto antiamericanismo da diplomacia brasileira foram dissolvidas em etanol, qual será a próxima babaquice que as viúvas do FHC e a sua mídia parlapatona irão vomitar contra o governo Lula? Na verdade, a perda de espaço que os Estados Unidos sofreram na América Latina tem mais a ver com a indiferença com que o governo Bush tem tratado o “sudamerica” do que com qualquer forma de antiamericanismo. Disso se aproveitam o Chávez, o Morales e os chineses.