Brasileiros pocotós

Há cerca de três meses escrevi neste blog sobre um dos esportes mais populares deste país: a polêmica. Agora acrescento: a polêmica estéril, improdutiva, medíocre, que não leva a resultado algum. Ou seja, nesta terra infeliz, pra não dizer desgraçada, tudo é debatido e nada é resolvido. E tudo permanece na mesma. Principalmente as torpezas. É o que estamos assistindo, agora, nesta briga iniciada após o trucidamento do garotinho carioca e que envolve, de um lado, os defensores do endurecimento da legislação que trata das penalidades aos menores infratores e aos bandidos adultos e, do outro, aqueles que não admitem a suposta “vitimização” da adolescência e a limitação dos privilégios dos bandidos presos. Pois muito bem. É muito fácil predizer o que vai acontecer. O lero-lero vai rolar durante um bom tempo, outra tragédia vai acontecer, quem sabe alguma família assassinada ou outro ônibus incendiado com os passageiros dentro, e nada, essencialmente, vai ser mudado.
Em verdade vos digo, ao contrário do que ensinava o velho Sidarta, a virtude, neste caso, está nas extremidades. É preciso, urgentemente sim, aumentar as penalidades impostas aos menores criminosos e acabar com os privilégios que a lei faculta aos marginais envolvidos em crimes violentos. Por que não diminuir a maioridade penal? Ora bolas, se o estado admite que um maior de 16 anos já tem discernimento suficiente para dirigir e votar, por que não pode reconhecer que o mesmo já tem capacidade para entender que matar e roubar são crimes? Por que não diminuir as facilidades e privilégios que beneficiam os criminosos adultos? Se um sujeito comete um crime tão grave para ser punido com vinte ou trinta anos de jaula, qual a lógica que embasa o direito a passar apenas 1/6 da pena na prisão? Quais os critérios para decidir que celerados terão direito aos indultos de natal, ano novo, dia das mães, o escambau, etc.? A frouxidão de uma legislação antiquada e sustentada pela ojeriza generalizada a qualquer possibilidade de arbitrariedade, conseqüência do trauma gerado pela ditadura militar, faz confundir autoritarismo com autoridade e não considera o interesse da coletividade. É por isso que me vem a bela presidente do Supremo, meritíssima senhora juíza de direito Dra. Ellen Gracie Northfleet, com uma conversa recheada de generalidades sobre a importância de tratarmos a questão de “forma bem ampla”, de evitarmos a tomada de decisões “sob clima de tensão e de emoção” e da necessidade da “agilização dos procedimentos”. Ora, ministra, se D. Pedro I não tivesse decidido em clima de tensão e emoção, provavelmente estaríamos comemorando a nossa independência em outra data. Talvez primeiro de abril. Além do mais, a levar-se em conta o laxismo da atual legislação, é fácil concluir que a agilização dos procedimentos também inclui a possibilidade de facínoras ganharem a liberdade mais rapidamente. E tem mais. Como decidir em outro clima, que não o de emoção e tensão, se, a todo momento, somos confrontados com a barbárie? A sociedade, e isto inclui ricos, pobres, remediados, trabalhadores, bandidos e políticos, precisa conviver com a certeza de que a justiça sempre será feita. Outra gracinha, cometida desta vez pelo ministro da Justiça, Sr. Márcio Thomaz Bastos, diz que este é "um tema muito complexo e que exige discussão profunda". Dada a incompetência com que o insigne ministro conduz a sua pasta, eu não esperava outra atitude dele. Fosse eu o presidente, já teria enviado este senhor para trabalhar de "pastorador" de míssil nuclear norte-coreano. Um cargo bem adequado para a sua indulgência ofensiva. A verdade é que o fato desta conversa fiada disseminar-se, principalmente, entre os próceres da esquerda pátria nos diz muito sobre a relação dos mesmos com os apoios e as verbas das ONG’s que prosperam na assistência aos menores e aos presidiários mas que não contribuem em nada, ou não têm interesse nenhum, na solução do problema. O resto são bem-intencionados úteis.
Por outro lado, é lógico que apenas o endurecimento das punições não vai minimizar a violência. Aí caímos na outra extremidade da questão. E novamente naquela antiga redundância. Enquanto não houver uma política clara e objetiva para a diminuição da pobreza, não haverá a mínima possibilidade de criarmos uma civilização digna do nome nesta Pindorama. Só o emprego, a educação, a moradia e tudo o que implique na perspectiva de melhoria das vidas dos pobres, num futuro mais promissor para eles, poderão trazer o lenitivo tão necessário para uma sociedade gravemente doente. O problema é que tais medidas, para serem implementadas, necessitam de muito investimento. E aí, caríssimos leitores, a mentalidade conservadora, atrasada, tacanha, egoísta, corrupta e ainda escravocrata da nossa elite (sim, ela existe!) bloqueia qualquer providência, por mínima que seja, direcionada à diminuição do nosso inferno social. E nisso ela encontra ativos e bem dispostos aliados na mídia brasileira. Basta ver como atacam desavergonhadamente o tímido programa Bolsa-Família do atual governo ou como dinamitaram cruelmente a política educacional do governo Brizola no Rio de Janeiro. As verbas, para a elite, são apenas para sustentar os seus privilégios e adubar as suas negociatas. Nunca para melhorar a vida dos pobres e nem para educar os seus filhos. Foi o que vimos nesta semana quando o governo federal cortou R$ 8 bilhões das verbas sociais enquanto desperdiça R$ 1,5 bilhão, dez vezes mais do que o previsto, com os Jogos Pan-americanos. E a imprensa, em geral histérica quando o assunto são os gastos públicos, nem um piozinho. Exceções dignas e raríssimas à parte. E ainda tenho que agüentar os aríetes bem remunerados da direita, como o bufão Reinaldo Azevedo, a proclamarem que pobreza não tem nada a ver com violência já que a maioria dos pobres são honestos e trabalhadores. Putzgrila!!! É mole???!!! Podemos concluir que o Reinaldão acredita que cigarro não tem relação com câncer de pulmão só porque a maioria dos fumantes não é atingida pela doença. Tal retórica só convence os cretinos que exultam com tais sofismas e que freqüentam o seu blog e lêem a VEJA só para receberam a sua dose diária ou semanal de mesquinhez.
Enfim, ao constatar esse e outros descalabros que medram na nossa triste história, ao verificar a celeridade com que a mediocridade avança petulantemente na nossa vida em sociedade, fico pensando se algum dia, em vida, poderei afastar da minha mente o pensamento de que este país, definitivamente, é uma idéia que não deu certo.
Escrito por VT às 22h16
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Afinal, quem manda neste país? Nós ou as saúvas?

Algum leitor certamente deverá lembrar-se desta frase dos tempos de antanho: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”. É óbvio que não se trata de acabar com Banco Central ou com o famigerado Comitê de Política Monetária, vulgo COPOM, no entanto, está mais do que em tempo deste governo tomar as rédeas desta carroça sem freios e enquadrar as duas instituições acima antes que elas acabem com o país de tanto cabalarem taxas de juros para o regalo dos especuladores financeiros.
Afinal de contas, por que o país cresce nesse ritmo constrangedor? Por que a nossa moeda apresenta esses surtos de sobrevalorização, prejudicando as exportações? Por que a economia brasileira segue estagnada? Não é preciso ser Ministro da Fazenda para saber que a razão seminal de tanto descalabro é a altíssima taxa de juros sustentada pelos “patrióticos e desinteressados” economistas do BC que, não por acaso, têm o hábito de fazer trafegar facilmente as suas carreiras profissionais entre o governo e as instituições financeiras privadas. Estas últimas justamente as administradoras dos interesses dos apostadores.
A pouco dias, vimos o Governo Lula orgulhosamente anunciar o lançamento do tal Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Ao mesmo tempo, não foram poucas as declarações de gente dizendo-se esperançosa de algum laivo de generosidade do COPOM no destravamento da economia. Algo assim como forma de contribuição. Esperanças vãs! Dois dias depois, o seus membros, que parecem mandar mais na economia do que o Presidente da República e os ministros da Fazenda e do Planejamento juntos, desmoralizaram toda a trupe governamental ao determinar o rebaixamento da SELIC em apenas 0,25%. Até posso escutar o palavrão que o Lula deve ter soltado em ambiente privado (ou será que engoliu em seco?). Mas, infelizmente, nesta área, o nosso presidente não parece disposto a sair de cima do formigueiro que corrói a política econômica do seu governo. Portanto, vamos continuar a escutar apenas meros discursos, que mais parecem aquelas vulgares sessões de auto-ajuda corporativa, destinados a convencer-nos a engolir o ultraje sem muita reclamação: “O país está no rumo certo”, “O risco Brasil é o menor da história”, “Devemos manter uma política econômica responsável”... ”Vão trabalhar, vagabundos, e deixem de reclamar!” E ainda tem gente que defende a autonomia do Banco Central! Ora, ora, pois, pois...
Escrito por VT às 08h59
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