Para aqueles que estranharem os onze nomes na lista, eu digo que o Espírito Santo são três pessoas distintas, os três mosqueteiros são quatro e eu não podia deixar "Penny Lane" de fora.
O Jornal “O Povo” de hoje publica reportagem mostrando a revolta do governador Cid Gomes (PSB) com a reportagem da VEJA desta semana que denuncia os gastos da sua administração com as contratações de bandas de forró, sem licitação, para animar eventos oficiais. Segundo a revista (ou seja lá o que aquilo for), o Governo do Ceará já despendeu cerca de R$ 330.000,00, desde abril deste ano, com as ditas bandas supostamente musicais. E, para piorar a maldade, a revista (?) ainda relacionou esses gastos com aqueles da viagem à Europa, de jatinho fretado, no início deste ano.
“Eu vou processar a revista VEJA”, bradava, lá do Crato, com ganas de visigodo contra a “imprensa livre”, a revoltada autoridade que logo se apressou a esclarecer que não tem como legalmente fazer uso de licitações para contratar as tais bandas.
Pois bem. Deste imbroglio, são três as observações que se impõem:
1 – O fato de a denúncia ter sido publicada pela VEJA já conta pontos a favor do governador.
2 – Dada a disposição da VEJA para servir aos interesses da plutocracia tucana paulista, fica clara a intenção da revista (?) de, na verdade, atingir o irmão do governador cearense e candidato recorrente à Presidência da República, Ciro Ferreira Gomes.
3 – Ainda que a lei permita a contratação dessas bandas sem licitação, nada justifica o gasto dessa quantia em dinheiro com coisas tão supérfluas e nocivas quanto essas estridentes bandas de forró. Enquanto isso, pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará ficam a mendigar um aporte de reles R$ 500.000,00 para prosseguirem as suas pesquisas de uma vacina e de um diagnóstico mais eficaz contra a dengue.
Pois é... O tempo vai passando e a tacanhez dos nossos governantes permanece tão inabalável quanto um granadeiro de Napoleão sob fogo cerrado. Enquanto isso, como na letra do antigo samba, vão, aos poucos, esvanecendo as minhas esperanças e a minha convicção na utilidade do voto como instrumento de mudanças.
Vai aqui uma dica de um site muito legal: o Vozes Brasileiras. Trata-se uma página onde você pode encontrar trechos de interessantíssimos arquivos de áudio como, por exemplo, o primeiro registro da voz humana realizado por Thomas A. Edson, uma fala do vetusto Imperador da Áustria Francisco José I, a última transmissão do Repórter Esso, na compungida voz de Heron Domingues, a célebre transmissão de Orson Wells noticiando uma invasão de Nova York por seres extraterrestres, em 1938, um dueto do “Rei da Voz”, Francisco Alves com Dalva de Oliveira, a transmissão da Copa de 70 na voz do mais vibrante (“olha lá, olha lá, olha lá no placarrrr!”) narrador esportivo brasileiro, o saudoso Geraldo José de Almeida, com os comentários do não menos saudoso João Saldanha, parte de um discurso de Getúlio Vargas no primeiro de maio, e por aí vai. Só falta mesmo o gol do primeiro tetracampeonato do Vozão, em 1978, na voz de Gomes Farias, talvez o mais reproduzido em toda a história da radiofonia mundial e considerado, pela torcida, quase um segundo hino do clube.
Conforme o previsto, o Presidente do STF, Gilmar Mendes, já se avexou a mandar soltar a quadrilha de Daniel Dantas, incluindo o próprio. A alegre trupe já deixou o xilindró ontem à noite em seus carrões de luxo. Como é do seu estilo, o ínclito ministro ainda aproveitou para passar um sabão na Polícia Federal, no Ministério Público e no juiz que ordenou a prisão dos elementos. Para tanto, Gilmar Mendes alegou a desnecessidade da prisão, além da ilegalidade da mesma. O jurista e presidente do Instituto Brasileiro Giovani Falconi, Walter Fanganiello Maierovitch, discorda frontalmente, declarando ter havido precipitação do ministro. Até a minha "ídola" se indignou. A julgar pelo seu notório comportamento e a presteza da sua discutível decisão, não acredito que o ministro Gilmar esteja preocupado em servir de exemplo para quem quer seja. O lastimável precedente já havia sido dado pelo "líder do PSDB no Supremo", Marco Aurélio de Melo, que mandou soltar o banqueiro Cacciola para, na seqüência imediata, assistirmos à fuga do bandido "carcamano" para o exterior. Enfim, só podemos lamentar. Por último, fica a questão: o que seria do combate à mafia e ao crime organizado, levado à cabo com tanto sucesso nas últimas duas décadas na Itália, se nesse país peninsular existissem juízes de tribunais superiores semelhantes ao nosso prestimoso presidente do Supremo?
E por falar no Rei, o golaço que o atacante do Vozão, Vavá, marcou, ontem, contra o Criciúma merece figurar como uma bela homenagem ao garoto Pelé na Copa de 58.
Quem é aquele moço com a bola no pé? É o Reeei Pelé...!!!
O amigo André Lino enviou-me este estupendo vídeo que, de tão bom, acabei por postá-lo no You Tube. A seqüência de imagens mostra cabalmente porque Maradona foi o melhor jogador de futebol de todos os tempos. Sim, amigos, os argentinos têm plena razão. Simplesmente porque Pelé não foi um reles jogador de futebol. O homem foi alguma coisa diferente. E muito superior.
O título deste "post" foi tirado do refrão de um samba, interpretado pelo ótimo Jackson do Pandeiro, utilizado para a produção de um clipe semelhante exibido no documentário “Pelé Eterno”.
É, parece que alguma coisa mudou mesmo nestepaíz nos últimos cinco anos. E para melhor. A intrépida Polícia Federal acabou por prender os notórios baluartes do crime do colarinho branco Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta. Acusados de chefiar organizações criminosas para lavagem de dinheiro, evasão de divisas e desvio de dinheiro público, a trinca vai experimentar, merecidamente e por algum tempo, os dissabores da prisão e o constrangimento da execração pública. Mudamos para melhor, mas, nem tanto. Dada a costumeira leniência do Poder Judiciário brasileiro com as bandalheiras no topo da nossa injusta pirâmide social, não acredito que o trio vá passar muito tempo enjaulado. Aliás, não consigo entender porque aquele outro bandidão, egresso da Itália, Salvatore Cacciola reluta tanto em voltar para o Brasil onde poderá desfrutar, com todos os direitos que as brechas da lei brasileira lhe faculta, das delícias da pulsilanimidade dos nossos juízes, principalmente os dos tribunais superiores. Como é sabido do distinto público eleitor e pagador de impostos, no Brasil só existem brechas na lei para libertar criminosos. Nunca para mantê-los presos. Por falar nisso, devemos aguardar, para qualquer momento, mais uma severa declaração do Presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, em defesa do estado de direito, ante os gravíssimos acontecimentos de hoje.
Vejo, no UOL, a prosaica manchete: “Helicóptero faz pouso forçado em cemitério de São Paulo”. Bem, bem. Isso me faz lembrar de antiga piada: há cinco anos, um helicóptero caiu no cemitério de Lisboa. As equipes de resgate lusitanas estão, até hoje, recolhendo os corpos.
E o Fluzão, hein? Depois de todo aquele alvoroço, acabou perdendo o título da Libertadores para o improvável LDU de Quito. Apesar de vascaíno, não me furtei a ficar acordado até uma da matina para torcer pelospós de arroz. Infelizmente, não deu. Mas, convenhamos, assim como em 1976 contra o Corinthians, mais uma vez, o time das Laranjeiras amarelou na cobrança dos pênaltis diante da sua aflita torcida. Cada vez acredito mais que esse negócio de amarelar é mesmo coisa de time tricolor. Aqui mesmo, no Ceará, tem um outro que, acometido da icterícia pulsilânime, vez ou outra, vacila diante de um certo alvinegro. Enfim, a derrota tricolor não deixou de recender um pouquinho aquele trágico maracanazzo na final da Copa de 50, momento da mais célebre amarelada da história do pebol mundial. O negócio foi tão sério que a seleção brasileira adotou o amarelo como uniforme oficial para, anos depois, reabilitá-lo a fulminantes talhos de habilidade plástica engendrados pelos gênios de Pelé e Garrincha.
O cangaceiro e o intrépido mascate que afrontaram os "poderes constituídos"
Permanece até o dia 03 de agosto do corrente, no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, a interessantíssima mostra “Cangaceiros – Lampião e sua gente”, onde são exibidas cerca de 100 fotografias de Lampião, Maria Bonita, Corisco e seus cangaceiros, além de armas, vestimentas e objetos pessoais. Tudo isso complementado por um vídeo de 11 minutos onde o cangaceiro mais célebre do Nordeste e seu bando posam e exibem detalhes de sua vida doméstica na caatinga. Tanto o vídeo como a maior parte das fotos do bando de Virgulino foram feitos, em 1936, pelo mascate sírio-libanês Benjamin Abrahão Botto que, fugindo da convocação para o serviço militar junto ao exército britânico, emigrou para o Brasil em 1915. Para tanto, depois de um intenso e cuidadoso trabalho de aproximação, a deixar qualquer comandante de volante convulsionando de inveja, Abrahão pediu e conseguiu do próprio Lampião autorização para a tal empreitada visual. O encontro se deu numa localidade chamada “Bom Nome”. Quem não gostou nadinha foram as autoridades da época, principalmente as do governo Vargas, que se sentiram ultrajadas pela descontração, ofensiva para eles, de um bando de foras-da-lei insolentes a dançarem forró e exibirem, entre vira-latas, sorrisos e gargalhadas, técnicas de movimentação e combate na caatinga. Além disso, desconfiavam do envolvimento de Abrahão com a caterva “lampiônica”, pois ele, além de ter conhecimento do paradeiro do bando, ainda enviava material para os jornais da época. Sem falar nas imagens, como esta exibida acima, em que o nosso herói se confraterniza alegremente com o líder cangaceiro. Finalmente, Abrahão ainda obteve do cangaceiro um último obséquio na forma de uma nota, escrita de próprio punho por Lampião e exibida ipsi literis logo abaixo, atestando a autenticidade do trabalho.
Coincidência ou não, no ano de 1938, poucos meses antes da morte do cangaceiro, Abrahão acabou assassinado, em Serra Talhada - PE, com 42 facadas. Todo o seu material já havia sido apreendido, no ano anterior, pelas autoridades “constituídas". Somente em 1969, os herdeiros do intrépido mouro conseguiram, através de uma ação na justiça, a liberação do material, hoje considerado de suprema importância histórica.
“Ilmo Sr. Benjamin Abrahão
Saudações
Venho lhi afirmar que foi a primeira peçoa que conceguiu filmar eu com todos os meus peçoal cangaceiros, filmando assim todos us muvimento da noça vida nas catingas dus sertões nordestinos. Outra peçoa não conciguiu nem conciguirá nem mesmo eu consintirei mais. Sem mais do amigo
Terminou o jogão. Rússia 3 X 1 Holanda. Mais uma vez a Holanda confirma a sua tradição de ser um time que joga muito, mas não ganha nada. Desde, pelo menos, 1974.
Independentemente do resultado, fico a louvar o futebol ofensivo de ambas as seleções. E a lamentar a cretinice dos treinadores brasileiros, especialmente os dos times cearenses, que não passam de retranqueiros bem remunerados. Duvido que tenham aprendido a lição do ótimo treinador da seleção russa, o não menos holandês Guus Hiddink, e que passou despercebida pelos comentaristas dos dois canais que transmitiam o jogão: dirigindo o modesto time russo frente à poderosa Holanda, ganhando de 2 X 1 no 2° tempo da prorrogação, o insolente teve o desplante de substituir um centroavante cansado por outro centroavante! Fosse, o treinador da Rússia, um brasileiro carreirista teria trocado o atacante por um volante e, assim, atraído o ímpeto do forte ataque holandês contra a sua defesa e, no mínimo, sofrido o gol de empate. O atrevido treinador, a exemplo de toda pessoa inteligente, enxergou o óbvio: a ensurdecedora possibilidade de vencer o jogo. Pois é, como nesta triste Pindorama os bons exemplos costumam ser texanamente ignorados, vamos continuar sofrendo com o mal futebol que, há alguns anos, assola o futebol brasileiro de todas as divisões, numa decadência cevada pelos técnicos patológicos e empresários chupins.
O ex-beatle Paul McCartney, aproveitando as celebrações do Dia Mundial do Meio Ambiente, amanhã, promoverá um evento beneficente virtual em prol da organização “Adopt-A-Minefield” (“Adote uma Mina Terrestre”, em tradução literal). Os internautas que desejarem participar do evento “Night of a Thousand Dinners” deverão se registrar nosite oficial do cantor a partir de amanhã, dia cinco. Caso façam uma doação de, no mínimo, US$ 25, poderão baixar a nova canção do músico, “Lifelong Passion (Sail Away)”. Além da canção, o site disponibilizará, também para download, receitas do cozinheiro inglês Jamie Oliver. Os downloads estarão disponíveis entre os dias 05 e 12 de junho.
Em Hong Kong, ocorre, hoje, manifestação em memória dos estudantes mortos pela ditadura chinesa no tragicamente célebre “Massacre da Praça da Paz Celestial (Tian'anmen)”. Ótima oportunidade para ressaltar a diferença de tratamento dado pela imprensa ocidental entre os regimes de Cuba e da China. Este persegue mais, prende mais e mata mais do que o cubano. Mas, àqueles que se entregam aos gozos da religião da economia de mercado é dado o perene perdão dos pecados. Antigos e vindouros.
Destaques de hoje na imprensa brasileira: denúncias de tráfico de influência no ministério da Dilma na venda da Varig e a escolha do Rio de Janeiro entre as quatro cidades finalistas para a escolha da sede das Olimpíadas de 2016. Bom, bom. Deu até pra ver os cifrões nos olhos do Nuzman em entrevista para o radiante Jornal Nacional da Globo. Se a ministra é ou não culpada, não sei. Que as investigações caminhem e mostrem resultados. No entanto, gostaria de ter visto tamanho furor em defesa da moralidade pública à época das privatizações criminosas do governo FHC, quando até o Ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, foi flagrado, em gravações telefônicas, praticando o hoje execrado tráfico de influência. Ou, mais recentemente, quando das denúncias de malversação das verbas públicas na organização daquele malfadado Pan do ano passado. Tudo ignorado. Tudo esquecido. Desde que para cevar audiências televisivas, vender jornais e revistas, e atender aos interesses do lucro privado, mesmo que ilegais, a quem a grande mídia vira-latas não cessa de fazer as vezes de serviçal.
(Concerto para Bangladesh - Madison Square Garden - Nova York - 01/08/1971)
Se vivo fosse, o ex-beatle George Harrison completaria, hoje, 65 anos. Vai aqui uma homenagem a este grande artista na mais bela canção de amor já escrita.
Parodiando a impagável letra do antigo samba de José Batista e Magno de Oliveira, a oposição fuleira vai ter que rebolar bastante para comprometer a popularidade do governo Lula e aumentar o cacife para as próximas eleições municipais. Deveria começar preocupando-se em cobrar dos governistas o cumprimento das promessas que tanto interessam ao distinto público eleitor como, a mais do que urgente, reforma política ao invés de desperdiçar energia com o surradíssimo e chatíssimo enredo de CPIs interesseiras e inúteis para investigar os gastos com os tais cartões corporativos que representam apenas “vultosos” 0,04% das despesas totais da administração federal, a maior parte gasta adequadamente. A tarefa de investigação poderia muito bem ficar por conta do Ministério Público. E poucos se dão conta do quanto o país se ressente da falta de uma oposição de qualidade.
Publico, aqui, artigo do filósofo Hélio Schwartsman, recentemente publicado na Folha de São Paulo. Um interessantíssimo libelo de advertência contra a ignorância científica, as suas falácias e os seus riscos para a sociedade livre.
Ciência sob ataque
Se eu fosse exagerado, diria que a ciência brasileira está sob ataque. Como não sou, parece mais adequado afirmar que ela vem enfrentando percalços imprevistos. Há duas semanas a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, participou de um evento criacionista e, em seguida, defendeu o ensino de teorias "alternativas" ao darwinismo. Poucos dias depois, reportagem da Folha (só para assinantes) mostrava que cerca de uma centena psicólogos, advogados, antropólogos e educadores procurava, através de um abaixo-assinado, impedir um grupo de neurocientistas de levar a cabo pesquisa que pretende esquadrinhar o cérebro de 50 adolescentes homicidas de Porto Alegre em busca de marcadores biológicos.
Investidas anticientíficas não são propriamente uma novidade, que o digam Giordano Bruno e Galileu Galilei. Mesmo em tempos de maior liberdade intelectual, como a Grécia Antiga, experimentadores do quilate de Eratóstenes e Arquimedes enfrentavam um certo desdém de filósofos puramente especulativos, então mais afinados com o "Zeitgeist". O inquietante no caso brasileiro é que os ataques partam, senão de aliados, ao menos de grupos e instituições que deveriam em tese apoiar a ciência. Afinal, Marina Silva, na condição de ministra, representa o Estado brasileiro. Já psicólogos, antropólogos e pedagogos, embora não costumem militar nas fileiras da "hard science", são --ou deveriam ser-- aquilo que antigamente chamávamos de "Geistwissenschaftler", ou seja, simplificando um pouco, cientistas sociais, os quais deveriam, pelo menos etimologicamente, estar comprometidos com o método científico.
Comecemos pelo caso mais gritante, que é o dos patrulheiros epistemológicos. De minha parte, considero a neurociência um campo fértil e promissor, do qual tem emergido muito material interessante para "insights" e reflexões. Admito, entretanto, que nem todo mundo precisa pensar como eu. É perfeitamente possível tachar sociobiologia, psicologia evolutiva e genética como "reducionistas" --o que quer que isso signifique. Mais até, é legítimo preocupar-se com o efeito que determinadas descobertas possam ter sobre a sociedade. Imagine-se, por hipótese, que se desenvolva um método de diagnosticar, ainda antes do nascimento, indivíduos mais propensos a tornar-se criminosos quando adultos. Tais embriões poderiam ser abortados? Se sim, por decisão de quem? Do Estado? Dos pais? São questões apaixonantemente controversas. E, por mais intransigentes que possamos ser na defesa da vida e da pluralidade humanas, nada justifica deixar de realizar um estudo cujos protocolos éticos se mostrem adequados, como é o caso do experimento gaúcho. Ele não implica nenhum risco ponderável para as "cobaias" e só ocorrerá se os pesquisadores obtiverem o consentimento esclarecido dos jovens e de seus pais ou responsáveis e também a autorização da Justiça.
Não é porque os nazistas cometeram atrocidades evocando a genética --equivocadamente, ressalte-se-- que devemos renunciar a compreendê-la. Se um dia investigações nesse campo levarem a tecnologias eugênicas, precisaremos discutir caso a caso a moralidade de sua aplicação. De minha parte, como princípio geral, acho que pais devem poder escolher se vão ou não ter filhos com determinadas doenças incapacitantes.
Qualquer que seja nossa posição pessoal, quer acreditemos que a vida é um dom de Deus, quer a consideremos o encontro inopinado de átomos de carbono com um pouco hidrogênio e oxigênio, não faz muito sentido que um cientista social --ou qualquer outra pessoa minimamente ilustrada-- se oponha à realização de um experimento capaz de ampliar nosso conhecimento por temor das implicações que tal conhecimento possa ter. Se os nossos solertes "Geistwissenschaftler" estão tão certos de que a empreitada dos neurocientistas dará com os burros n'água --possibilidade bastante real-- que critiquem, como convém ao método científico, os resultados do experimento, não sua realização. Se estão tão certos de que a neurociência encerra o ovo da serpente, que o demonstrem com base em evidências e encadeamentos lógicos, não com ilações e palavras de ordem. Minha sensação é a de que essa gente, ao defender a proibição pura e simples, repete os argumentos com os quais a Igreja Católica impedia a dissecação de cadáveres e promovia outros vetos francamente obscurantistas.
Voltemos agora ao mais delicado caso do criacionismo ministerial. Marina Silva tem, como cidadã, o direito de professar a fé que bem desejar. Mais até, não é porque se tornou ministra de um Estado nominalmente laico que precisaria deixar de comparecer aos cultos de sua igreja, a Assembléia de Deus. Ela, entretanto, avançou o sinal quando participou do 3º Simpósio sobre Criacionismo e Mídia, promovido pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo, e, à saída, ainda deu uma entrevista na qual, no melhor estilo dos "neocons" dos EUA, sustentou que visões de mundo criacionistas devem ser ensinadas nas escolas, para que os alunos possam decidir por si mesmos.
Estamos aqui diante de dois problemas. Em primeiro lugar, Marina deveria ter-se recusado a participar do evento, pela simples razão de que não foi convidada para falar na condição de simples fiel da Assembléia, ou teóloga, mas sim por ser ministra do Meio Ambiente, ou seja, uma representante do Estado. E, nos termos do artigo 19 da Constituição, é vedado ao Estado "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Essa, entretanto, é a falta menos grave, que seria facilmente perdoável, se a ministra não tivesse em suas declarações abraçado também a pedagogia ultraconservadora, que pretende transformar fatos comprováveis em comprovados em questões abertas a escrutínio religioso.
Não conheço as opiniões hidrostáticas do papa, mas não importa o que ele pense ou decrete acerca da fervura da água, o fato é e será que, em condições normais de temperatura e pressão, ela ferve a 100ºC. De modo análogo, independentemente do discurso religioso, as bases gerais da teoria evolutiva mais ou menos como postulada por Charles Darwin no século 19 estão cabalmente comprovadas. Falácias criacionistas não vão mudar isso. O rol de evidências pró-Darwin é extenso. Vai da totalidade do registro fóssil até aqui coletado --e nunca falseado por nenhum despojo geologicamente impossível_ até a capacidade de fazer previsões sobre o futuro, como o surgimento de cepas de bactérias resistentes a novas classes de antibióticos.
O criacionismo em sua mais nova roupagem --o tal do design inteligente-- sustenta que a evolução é "apenas" uma teoria e cheia de supostas dificuldades, como se tudo em ciência não fosse "apenas uma teoria", aí incluída a teoria da gravidade. Seu argumento básico é o de que seres vivos são complexos demais para ter surgido "por acaso": se eu encontro um relógio, a sutileza e a precisão das roldanas e engrenagens, me autoriza a supor um relojoeiro; de modo análogo a arquitetura de estruturas como asas e olhos permitiria inferir um Criador.
"Non sequitur", que, em bom português, significa: é pura bobagem, coisa de quem não entendeu (ou fingiu que não entendeu) o bê-á-bá do darwinismo. Embora mutações nos seres vivos de fato ocorram aleatoriamente, a seleção subseqüente --que conserva o que é útil e despreza o que não o é-- nada tem a ver com acaso. Ela é, se quisermos, o avesso do acaso. Trata-se, na verdade, de um dos poucos processos naturais que conseguem simular o trabalho de projetistas. Só que funciona ao contrário. Ao preservar traços mesmo que milimétricos de utilidade e descartar todas as mutações que não servem para nada (a maioria delas resulta em cânceres, é oportuno lembrar), a seleção consegue, ao longo de inúmeras gerações, produzir estruturas que passam por entidades concebidas por uma inteligência.
O que o criacionismo faz é, apoiando-se nessa ilusão, impingir raciocínios capengas que soarão convincentes a alunos com pouco treinamento epistemológico e já socialmente orientados a "aceitar a palavra de Deus". Admitir que padres e pastores profiram tais sandices em epistemológicas em seus templos é uma necessidade democrática. Mas não faz nenhum sentido repeti-las nas salas de aula de um Estado laico. Fatos sobre o mundo não são matéria que se decida com base em convicções pessoais ou maiorias.
E, infelizmente, os neocriacionistas não se contentam em acreditar em Deus. Querem, sabe-se lá por qual motivo, revestir seu delírio de vestes científicas. Só que estas não lhe cabem.
O grande erro da comunidade científica norte-americana foi ter esperado tempo demais antes de reagir às investidas criacionistas, deixando que o discurso pseudocientífico e aparentemente democrático prosperasse e ganhasse terreno. Infelizmente, nós, no Brasil, estamos repetindo esse equívoco. Vale lembrar que o pio casal Garotinho já introduziu o ensino do criacionismo nas escolas da rede pública do Rio de Janeiro. Consertar as coisas agora será um deus-nos-acuda.
Não deixa de ser irônico que os mesmos sociólogos, advogados e psicólogos que até há pouco se erigiam em defensores máximos das liberdades agora propugnem pela censura a pesquisas, e os mesmos religiosos criacionistas que poucos séculos atrás queimavam livros e pessoas agora recorram à liberdade de pensamento para apregoar tolices na escola pública. Não acredito em deuses, mas, é forçoso reconhecer que eles têm um senso de humor infernal.
Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.
O Governo Brasileiro instalou um sistema de medição e controle de abalos sísmicos para cobrir todo o país. Poucos dias após entrar em funcionamento, o Centro Sísmico Nacional descobriu que haveria um grande terremoto no Nordeste. Assim, enviou um telegrama à delegacia de polícia de Icó, no Ceará, com a seguinte mensagem:
"Urgente. Possível movimento sísmico na zona. Muito perigoso. 7 na escala Richter. Epicentro a 3km da cidade. Tomem medidas e informem resultados."
Uma semana depois, o Centro Sísmico recebeu um telegrama que dizia:
"Aqui é da Polícia de Icó. Movimento sísmico totalmente desarticulado. Richter tentou fugir, mas foi abatido a tiros. Desativamos as zonas. Todas as putas estão presas. Epicentro, Epifânio, Epicleison e os outros cinco irmãos estão detidos. Não respondemos antes porque teve um terremoto da porra aqui."
Os gênios modernistas que trocaram um palácio por um chafariz e a besta do general
Soube, pelo Liberdade Digital, que a centenária Estação Ferroviária de Parangaba, inaugurada em 1873 com o nome de Arronches e ameaçada pela obras do Metrofor, foi, em boa hora, tombada como patrimônio histórico e cultural pela Prefeitura de Fortaleza. O tombamento encerra uma disputa entre o Comitê Pró-tombamento da Estação de Parangaba (CPEP) e a prefeitura, de um lado, e a Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos, responsável pelas obras do metrô, o governo do estado e uma parte dos moradores do bairro do outro. Estes últimos alegavam que o prédio estava servindo, tão somente, como covil de marginais. Por hora, as obras do metrofor, naquela área, vão permanecer paradas até que se encontre uma solução definitiva para o problema do trajeto do metrô.
Toda esta história me faz lembrar do desventurado Palácio Monroe, antiga sede do Senado Federal no Rio de Janeiro. Construído em 1904 para ser o "Pavilhão Brasil" na Exposição de Saint Louis, teve o seu projeto premiado pelo júri desta. Pela primeira vez, uma obra da arquitetura brasileira era reconhecida internacionalmente. Foi desmontado e reconstruído no Rio para sediar a "Terceira Conferência Panamericana" em 1906. Tornou-se sede da Câmara dos Deputados em 1914 e do Senado Federal em 1925. Em 1970, teve o seu pedido de tombamento negado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN). O caminho estava livre para os seus algozes. Em 1976, foi criminosamente derrubado, por ordem do governo militar do Gen. Ernesto Geisel, apesar de toda a intensa campanha movida pela sociedade civil da época para a preservação do belíssimo prédio. Os engenheiros do metrô carioca até que colaboraram. Redesenharam o trajeto do túnel para que os trilhos contornassem o palácio. Tiveram até a delicadeza de proteger as suas fundações para que a sua estrutura não fosse abalada pelas obras. Tudo em vão. A decisão foi parar nas mãos do símio gaúcho que mandava no Brasil naquela época. Ele não hesitou. Mandou por tudo abaixo. E os motivos? Sabe-se lá! Como era época de ditadura militar, não se pôde investigar a fundo toda a história. Provavelmente, foi mais uma tentativa do regime de acabar com a memória política da cidade. Outros dizem que tudo não passou de mesquinha vingança do ditador Geisel que, no passado, havia sido preterido numa promoção que acabou favorecendo o filho do engenheiro militar que projetou o prédio, Francisco Marcelino de Souza Aguiar. Ressalte-se, ainda, que o jornal “O Globo” patrocinou a virulenta campanha pela demolição do edifício, apoiada por meia dúzia de arquitetos “modernosos”, entre eles, Lúcio Costa. Este chegou até a passar abaixo-assinado pelas associações de arquitetos pedindo a demolição. Um dos argumentos dos “gênios” era que o palácio não tinha nenhuma importância arquitetônica ou histórica (!) e que, no seu lugar, um jardim com chafariz ficaria muito melhor (!!!). Incontáveis são as atrocidades cometidas por arquitetos modernistas contra a estética, a harmonia e o conforto das grandes cidades do Ocidente.
Pois bem. Hoje, na Praça Mahatma Gandhi, próxima à Cinelândia, ergue-se, apenas, um prosaico e triste chafariz a marcar o local onde, outrora, se erguia o majestoso prédio histórico. Atualmente, quem passa de metrô pelo local pode sentir uma leve curva, resultado dos esforços dos engenheiros para salvar o palácio. Monumento melancólico a celebrar a estupidez de uma gente presunçosa e besta, incapaz de acolher a beleza e que se julga apta a moldar a memória histórica de um povo. E, pior ainda, de governá-lo. No entanto, só conseguem fazê-lo ao gosto dos seus preconceitos, da sua vaidade e da sua mesquinhez. Quase sempre resulta em desastre.